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29 fevereiro 2012

UMA HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO DO NOSSO GIANECCHINI

Claudia Raia sobre Gianecchini: 

“Eu sapateava e cantava para ele 

no hospital”

No momento em que Reynaldo Gianecchini – Giane para os amigos – 
se sente, pela primeira vez, curado do câncer 
linfático, após um autotransplante de medula óssea, sua 
amiga mais próxima durante todo o tratamento, Claudia 
Raia, quebra o silêncio que se impôs e, a pedido do ator, 
fala abertamente sobre a experiência rica a seu lado no Hos
pital Sírio-Libanês, em São Paulo. E a torcida por sua cura.
“Aprendi demais com a postura do Giane diante da doença. 
Sei que minha missão na vida, todos esses meses, desde 
agosto do ano passado, passou a ser diverti-lo. Mas quem 
se beneficiou mais fui eu. Ele é 
um guerreiro com uma serenidade que não 
é deste planeta”.
Ruth de Aquino, uma senhora repórter.
A revista ÉPOCA que está nas bancas publica 
uma conversa minha com Giane de duas 
horas e meia, em seu apartamento nos Jardins, 
sobre todo o processo de superação e 
fé do ator, até seu “renascimento” com o 
transplante. Aproveito para compartilhar 
com vocês, no 7×7, o depoimento emocionado 
e exclusivo da Claudia Raia, em primeira pessoa.
“É uma relação muito forte a nossa. Parece coisa de outras vidas. Começou na novela Belíssima, do Silvio de Abreu, 
no fim de 2005. Acho que 
esse papel do mecânico 
Pascoal (foto ao lado) foi 
um divisor de águas. Eu 
fazia a Safira. Tivemos 
uma química ótima. E era 
uma comédia, a primeira da trajetória do Giane.
“A partir daí, ele não teve 
receio de interpretar mais 
nada. É difícil ser bonito 
como o Giane é e decidir 
ser ator. As pessoas 
perseguem muito. Depois do Pascoal, ele ficou desprovido de qualquer formato de 
galã. Iniciamos uma grande amizade. Nós dois somos do interior. Temos o mesmo tipo 
de criação. Adoro a mãe dele, dona Heloísa, um dos melhores seres humanos que 
conheci, uma deusa.
“Quando o Giane foi diagnosticado com câncer, no finalzinho de julho do ano passado, estávamos para trabalhar juntos de novo. Eu tinha tido a ideia de chamá-lo para o 
musical Cabaret. O (Miguel) Falabella, diretor, também achou que o papel era a cara 
dele. O Giane tem muitos talentos que as pessoas não conhecem. Tem uma bela voz, 
é um barítono. Ia voltar a estudar dança. A gente estava muito feliz. Os personagens do musical precisavam dessa química que nós já tínhamos experimentado na televisão. 
É tão confortável ter intimidade no palco.
“Eu já andava meio preocupada com ele, sempre com alergia, gânglios, uma 
febrezinha. Dois dias antes de começarem os ensaios do Cabaret, eu estava num 
evento em São Paulo à tarde. Meu celular tocou e era o Giane: “Claudinha, você 
pode falar? Tenho uma coisa pra te contar. Eu estou com câncer”.
“Eu tive um pré-desmaio. O telefone continuou na minha mão mas eu ia cair, 
alguém me segurou. Tive uma ausência da realidade. Eu não sabia até então 
quanto eu o amava. Mas amava 10 vezes mais. O Giane disse: “Calma”. É 
inacreditável. Como assim ele tentar me acalmar? Ele não é daqui, juro, não é 
deste planeta. “Calma, vai dar tudo certo”, insistia ele. “Estou no Sírio, internado”.
“Bom, eu entrei no hospital e tenho a sensação de que nunca mais saí. Eu dormia ali, 
não vinha para casa nos primeiros dias. Era finalzinho de julho. Cheguei e ele estava 
meio escondido, cheio de gânglios saltados no rosto, na cabeça. Primeiro ouvi ele 
dizer: “Vou aparecer, viu?  E você não grita”. Pode? Acho que minha missão é 
diverti-lo. Sempre foi assim, a gente se diverte horrores. Ia ao hospital duas vezes 
por dia, antes de ensaiar e depois do ensaio.
“Esse menino é um guerreiro como poucas vezes se viu. Ele supera a função humana. 
Eu estive com ele todos os dias e eu não vi ele esmorecer um minuto. Não vi o Giane 
de mau humor. Nem se cansar. Nem irritado. Impressionante a certeza que ele tinha 
da cura. A certeza de que ele precisava passar por aquilo. Eu aprendi demais do lado 
dele. Eu tenho 45 anos e acho que não aprendi na vida o que aprendi com ele nesses últimos oito meses.
“Não é só por ele estar doente nem porque amo ele. O Giane esteve presente em 
todos os momentos de composição de minha personagem no Cabaret. Eu dançava 
pedaços de coreografia no hospital. Ele perguntava sobre os ensaios, pedia que eu 
cantasse. O material fotográfico levei todo para ele ver. E ouvia suas opiniões e 
críticas: talvez aqui, talvez ali fosse melhor assim.
“Ele fugiu dos médicos, contrariou a dra Yana, maravilhosa, para ir no ano passado 
ao ensaio do musical no Espaço Chaim. Ele foi de máscara. Eu botei um sofá, o Giane 
ficou todo constrangido porque todo mundo o aplaudia, contente de ele estar ali. No primeiro mês de ensaio, eu estava presente de corpo mas não fui, você entende? Eu 
não estava inteira ali, eu não queria substituí-lo, porque achava que podia não ser 
câncer. Depois de um mês, todo mundo numa torcida louca, ficou claro que não dava.
“É tão simbiótica nossa relação que, quando eu fiquei “para sempre” no Sírio, eu 
perdi a voz durante três semanas. Eu ia ensaiar sem voz o musical. E dizia ao Giane no hospital: “Você só não me manda embora daqui”. É como eu tivesse que ir lá 
realimentá-lo.
“Vi ele passar por coisas inacreditáveis. Na UTI, quando ele quase morreu (no início, 
antes da quimioterapia, quando a colocação de um cateter perfurou acidentalmente 
sua veia). A pressão do Giane desceu a 3. Dona Heloísa (a mãe) e eu chegamos às 3h 
da manhã. Eu fiz o (dr Raul) Cutait sair do centro cirúrgico para explicar. Giane estava transfigurado. Eu falei: “Credo, você está  com a boca inchada, maior do que a da Aline Moraes, parece a Angelina Jolie”. Eu sapateava, fazia loucuras para ele rir.
“Giane tem muitos amigos. Todos estavam presentes da maneira que podiam. Eu tive a sorte de poder estar com ele. A segunda vez que eu ia era depois de meia-noite. Eu sempre fugia da imprensa, entrava e saía pela porta dos fundos do Sirio.
“E depois aconteceu a coisa do pai dele. Ele me disse ao telefone: “Meu paizinho 
partiu, mas foi lindo, cantei a música Nossa Senhora do Roberto Carlos, o quarto dele 
estava todo branco”. E emendou: “Como foi seu ensaio?” Eu dizia que isso não tinha a menor importância mas ele queria participar de tudo, da vida.
“A gente passou a conviver com muita gente bacana, crianças espetaculares, uma 
menina de 10 anos que tem leucemia há oito. A minha vida inteira eu ajudei o Hospital 
do Câncer do Rio de Janeiro, eu animava as crianças, contava histórias. Depois que tive meus filhos, parei. Mas lá estava eu de volta, animando o Giane. A vida é muito louca.
“Sua cura é um milagre. Ele foi muito ajudado espiritualmente. É pelo merecimento. Ele tem uma conexão direta com Deus. Medita quando acorda. Estivemos juntos na corrente Bezerra de Menezes. Eu falei, “Giane, você está prestando um serviço tão importante 
para as pessoas”. A figura de um homem vencedor, bonito, saudável, que tem câncer 
e briga para viver. A mensagem que fica é que tudo é possível. Ele sempre repetia a 
frase: amanhã é um outro dia.
“Agora, a gente tem planos de viajar juntos para celebrar. Tenho uns intervalinhos no trabalho. Quero muito que ele faça um musical. Ele vai voltar a estudar canto e balé. 
Mas agora é um momento frágil, ele renasceu em fevereiro. Se não é a gente para dar 
uma travada, o Giane já estaria indo para o Rio, para a praia.
“Às 7h da manhã ele me ligou em janeiro para dizer que o transplante de medula tinha dado certo. Ele disse: “Você é a primeira a saber que estou curado”. Era um chororô no telefone. Eu não pude ir logo porque eu estava com gripe. Depois melhorei e entrei com luva, máscara, tudo. Comprei uma torta de nozes que ele adora, “Amor aos pedaços”. A gente cantou parabéns. E noutro dia ele esperou eu sair do teatro para a gente ir a um restaurante japonês, porque ficou muito tempo sem poder comer nada cru.
“É muito bom estar do ladinho dele. É muita alegria. Essa guerra está ganha porque ele merece.”
Ruth de aquino é colunista de ÉPOCA.

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