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25 outubro 2006

Sinto vergonha de mim (Página poética de Cleide Canton)

SINTO VERGONHA DE MIM

Sinto vergonha de mimpor ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mimpor ter feito parte
de uma era que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente, a derrota
das virtudes pelos vícios,a ausência
da sensatez no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupaçãocom o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"em caminhos eivados
de desrespeito para com o seu próximo.
Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar atos criminosos,
a tanta relutância em esquecer
a antiga posiçãode sempre "contestar",
voltar atrás e mudar o futuro.
Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhosque não quero percorrer...
Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,das minhas desilusões
e do meu cansaço.Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo na
pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!
De tanto ver triunfar as nulidades,de tanto ver prosperar a desonra,de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem- se os poderesnas mãos dos maus,o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra,a ter vergonha de ser honesto.

23 outubro 2006

Brincadeira... (de Miguel Torga / Obvious - PT)



Brinca enquanto souberes!

Tudo o que é bom e belo

se desaprende...

A vida compra e vende

a perdição.

Alheado e feliz,

Brinca no mundo da imaginação,

Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente

Como um bicho!

Fura os olhos do tempo,

E à volta do seu pasmo alvar

De cabra-cega tonta,

A saltar e a correr,

Desafronta

O adulto que hás-de ser!


Miguel Torga (extraído do blog Português Obvious)

22 outubro 2006

Maestra - um tributo (Fernando Queiroz)



Lá havia um ninho de adversidades primárias

As manhãs sobrecarrecadas de esperanças

O vento soprava quase sempre para baixo.

Lá caminhávamos sobressaltados, um desvio

aqui, outro ali,

mas sabíamos de cor a estrada.

Tudo lembrava simplicidade.

Roteiros imaturos, brincadeiras inocentes,

barreiras que caiam, o medo rondava.

A Maestra estava sempre ditando o tom.

Crianças grandes, grandes eram aquelas crianças.

A responsabilidade logo cedo rondava a nossa casa.

Casa de sonhos, casa de prantos, casa de amor.

Lá éramos oito, depois sete, ficou diferente.

Aquela ausência ficou presente em nossas vidas.

Tão rapidamente a Maestra se multiplicou.

E mostrou pra gente que o Amor supera tudo.

Lá onde foi quase o começo de tudo, aprendemos que também

tudo era possível, bastava seguirmos

o exemplo da nossa Maestra...

A vida seguiu; nós seguimos e estamos aqui –

graças a Maestra ;
graças a Deus, que nos colocou nos braços Dela.

Fernando Queiroz

21 outubro 2006

Nostalgia de Garrafa (SRebouças)



Um conhecido meu, fotógrafo inveterado, apanhou um aspecto muito interessante de uma garrafa tipo das de champagne, emborcada no seu balde de gelo, quando o casal ao seu lado num restaurante se levantou para ir embora. Seu olhar caiu sobre a garrafa ali na mesa, e não teve dúvidas: fotografou-a.


Ficamos com as considerações em torno de uma garrafa abandonada.
Um ar triste, na nostalgia da dúvida nascida da incerteza do momento vivido.
Tem um ar melancólico de uma incógnita do que se seguiu após...
Não importa ou importa e muito o casal que a utilizou, ou para uma reconciliação, ou para uma despedida, ou uma singela comemoração..
Nunca saberemos. Mas resta-nos a poesia da garrafa emborcada,
metafísicamente, em seu balde de prata e ornamentada com seu vestido de linho...

Tempo, Decerto, Mas Tempo (SRebouças)

Lá em casa os relógios não dão horas,
Dão saudades.
Não dão minutos,
Dão suspiros.

Lá em casa o calendário não dá os dias
Dá-lhes por falta simplesmente.
E os escritos que lhe fazem, algum apontamento,
Apaga-se quase automaticamente...

A areia da ampulheta já não escorre
Porquê não há mais quem a vire
E a areia assim engruvinhada
Sem poder marcar mais nada...

Os vidros das janelas não deixam filtrar
O ar da manhã, a serenidade da tarde
Ou a evocação da noite, fechados,
Assim emporcalhados e tristes.

Lá em casa as horas
Não dão saudades,
Os minutos não dão suspiros
Nem primeiros nem segundos.

De que serve mais a ampulheta,
O que são horas ou minutos,
Quando os segundos, soldados do Tempo
Há muito desertaram todos?...


HesseHerre

19 outubro 2006

Meu Grande Ex-Amigo: o Cigarro (SRebouças)

Amigão de todas as horas, das de alegria, às de expectativa, de apreensão, de tristeza...Tato no roliço, pena de ve-lo queimar, porisso eu usava os longos com filtro...estão a se acabar, é comprar mais, comprar de pacotes, para não correr o risco de ter que caçar guimbas...O dentista me dizia: teus dentes estão que é tártaro puro...

Dedos manchados, dentes manchados, mas por sorte ao longo desta carreira de fumante que começou com 19 anos, pulmões perfeitos...então onde o problema? É fumar...que tal?

Mas um dia uma operação, cirurgia por video para extirpação de uma vesícula biliar, que deveria ser banal, veio acompanhada de um infarto do miocardio...Se eu morri? não, admirável e solidária amiga loura, senão não estaria cá a escrever estas linhas...O cardiologista me receitou 12 remédios e ao cabo findou com esta pérola:

"este aqui é o Isordil, se tiveres dor coloca um comprimido embaixo da lingua e espera 15 minutos...se não passar põe outro, me telefona e segue para o hospital..."

Quer dizer, eu estava tão ruim assim? Um quase inválido? Para todo o lugar que eu ia certamente comigo uma garrafinha dágua, o isordil e 1 copo, o cartão do professor e o celular (que em Portugal é telemóvel...).

A minha depressão, que sempre existiu em dose mínima, tornou-se cavalar.... a ponto de ter eu de procurar um psiquiatra. Meu irmão, fumante chaminé, pendurou-se nas bulas daqueles remédios e achou numerosas indicações de que vários deles podiam causar ou agravar um estado depressivo...O psiquiatra e um outro cardiologista, este dos bons, reduziram a tal lista, me deram um ansiolítico (sulpan) e um antidepressivo (lexapro) e é com eles que eu vou levando. O antidepressivo leva 2-3 meses para atingir o efeito desejado, daí o ansiolítico ser necessário.Mais interessante de tudo foi a minha aceitação da retirada da nicotina do meu organismo: GENTE, ESTOU CONVENCIDO DE QUE A COISA MAIS DEVASTADORA É O ASPECTO PSICOLÓGICO DA RETIRADA, DA PROIBIÇÃO. A droga protesta, se lamenta, implora, só umzinho, igual ao álcool...que que tem? Não caiam nessa!Das duas uma; ou v. banca o macho, toma uma atitude, ou um dia algo acontece a te impelir obrigatóriamente a não mais fumar. Você vai escolher VIVER.