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29 agosto 2006

Tristezas e Crianças não combinam (SRebouças)


IMAGINEMOS UM ROSTO DE CRIANÇA DENTRO DA GUERRA - QUALQUER CRIANÇA, QUALQUER GUERRA

Tão no início da vida, e as bonecas que deveriam povoar seu mundo já perderam todo o sentido.
O olhar destes olhos jovens, que deveriam ter visto muito pouca coisa ruim - para isto existe a infância - é tão dolorido,
sério, profundo, acusador, ressentido.
Cicatrizações?...
É difícil acontecerem, a amenizar a miséria e a devastação que já se fazem sentir
no olhar desta testemunha de acusação.
Ninguém a ajudou, a ela e aos seus irmãos miseráveis numa terra igualmente miserável,
nem os americanos sempre equivocados e mortalmente feridos no seu orgulho naquele Setembro negro, nem o fanático bilionário que armou mais uma tragédia, gastando zilhões de dólares, esquecendo-se do povo sofrido que o cerca.Somos todos bonecos, somos todos esquecidos e descartáveis. À mercê dos loucos e dos degenerados deste planeta.

Eu dou graças.... (SRebouças)

Eu dou graças a Deus por estar chegando ao final de minha carreira médica.


Nunca fui brilhante, nem professor, nem cientista, nem sequer poderia considerar-me um sacerdote da profissão.
Não fui um profissional excessivamente empenhado no acompanhamento dos casos com que travei contato, nestes mais de 40 anos. O desenrolar das atividades em hospital geral, o atendimento no Pronto Socorro e ambulatório, e mesmo no consultório , à luz dos convênios médicos, esmagadora maioria frente à clínica particular, cada vez mais escassa, tudo determinando uma impessoalidade na relação médico-paciente... Claro que já não peguei o padrão 'médico de família', que ia a domicílio e atendia a gerações sucessivas... Isso ficou no passado, as contas de honorários eram pagas dentro de um padrão justo, não alcançando os valores estratosféricos de hoje. Não havia ainda a medicina de Convênios, os profissionais de saúde não eram tão desvalorizados nem uns poucos se julgavam tão valorizados assim...Fui humano, accessível, sempre procurei usar o bom senso dentro da prática médica, procurei apaziguar nas pessoas aquilo que as afligia, relevar suas preocupações e ansiedades, usar acima de tudo o bom senso, nunca indiquei um tratamento clínico ou cirúrgico de má fé, e sempre, ao regressar ao lar, pousei a cabeça no travesseiro e dormi o sono dos justos.
Nunca fui um mercenário, nunca tentei iludir ou enganar a clientela inocente e fácil de ser levada ou convencida, pelos mal intencionados de todas as profissões existentes.
Não sendo um santo, nunca me deixei levar pelas prerrogativas de minha situação de médico, embora eu seja de uma época onde ‘médico’ era encarado como um ser especial, respeitado pela sociedade que o cercava, enquanto hoje ele está triostemente reduzido a um pac-man de CHs. Desde cedo, no início de minha vida em consultório, entendi que o futuro indicava o caminho dos convênios médicos, e que a clínica particular estaria reservada para uns poucos, arriscados muitos deles, sem empregos outros, a passar dissabores em caso de eventuais paralisações de suas atividades, mesmo temporárias.
Fiz uma seleção de convênios que mantenho até hoje, não fui aceito por outros, outros estavam de portas fechadas, mas esta minha seleção permanece satisfatoriamente funcionante.
Eu imaginava que os convênios pagariam bem, desde aquela época, mas o que se viu nestes anos todos foi a lei do ‘Mateus, primeiro os meus’ (deles, convênios). E só agora nossos órgãos de classe começam a arrancar as primeiras vitórias em termos de pagamento condizente de serviços clínicos/cirúrgicos.
Se tivesse de começar de novo, começaria de novo com convênios. E, claro, particulares, mas com consultas um pouco acima da média de ressarcimento dos convênios.
Nestes tempos bicudos, não entendo consultas de 200, 300, ou 450 reais, mesmo com os profissionais ostentando paredes forradas de diplomas daqui e do exterior. E logo nesta terra, onde o salário mínimo (ridículo) é de pouco mais de 300 reais, e os serviços de Saúde federal, estadual e municipal são uma vergonha. Não sou político, desprezo a política e seus filhos, diga-se. Aqueles que têm o rei-na-barriga, os donos da verdade, os que se valem de subterfúgios para ‘faturar mais’, aqueles que são desleixados, incompetentes e insensíveis, que vêem a Medicina pelo seu talão de cheques, e aqueles que fazem enfermagem do tipo banho no leito e higiene anal, estes não chegarão ao final de suas carreiras com a paz de espírito dos mansos de coração, dos honestos, dos bem intencionados, aqueles que sabem ser a Medicina uma das profissões mais lindas que se possa abraçar. Mesmo no Brasil, onde o desestímulo ao aprendizado e ao exercício médico é quase uma tônica geral.

Eu dou graças a Deus por estar chegando ao final de minha carreira médica...








22 agosto 2006

Desgaste de tanto ciúme (SRebouças)

Tão dificil o simples gesto
como assim o da mão na mão
como assim o do olho no olho.
É a palavra que de tão gasta
já nem tenta mais ser ouvida.
É a caminhada para o mesmo lado
sem nem mesmo fingir compor
uma ala una, incorporada.
É a falta de transparência sempre,
acobertando, dissimulando,
objetivos calculados
e sempre de repente anunciados...
pássaro que pousou no solo verde
de um chão tão plantado de verdades
enleou-se em tantas mentiras
e agora quer voar, e não pode.
Pra jogar toda esta merda
pra bem longe
abrir as portas, abrir as janelas,
contemplar o essencial da Vida,
valorizar mais que avaliar
respeitar mais que invadir
que espreitar
que maquinar
que planejar
precisa ver luz
onde agora só penetram trevas...
precisa dar-te cores
neste teu vitral
amarelo de ciúmes e insegurança.
Porquê o coração também sofre
de desgaste de materiais
como de desgaste de sentimentos.
S.Rebouças

Voltar também é preciso (SRebouças)

Sim, eu gostaria de voltar,

simplesmente voltar

decididamente voltar,

como o barco retorna ao porto

partindo as águas da separação...

Voltar, sentindo premonitoriamente

o gosto do abraço, daquelas mãos

que sofregas me envolveriam

como se não mais me quisessem largar,

como ostras novas agarradas ao rochedo

deste meu coração lúgubre e vazio.

E todas as lágrimas choradas em silêncio

naquela separação seriam novamente

gotas deste mar singrado

fazendo um manto a coroar esta volta...

Sim, eu gostaria muito de voltar

para romper este silêncio que me mata aos poucos,

esta saudade, este marasmo, esta falta

de quem eu quase já nem me lembro mais.

Voltar só, na fantasia de que não sou

mais um mero passado,

embora saiba que esta cicatrização lenta

possa talvez ter sido

a minha última e imerecida chance

de perdoar e ser perdoado.

E que a volta deste barco seja

a última atracação, sem mais partidas,

numa cristalização paralisada,

sem outras viagens senão as do espírito.

S.Rebouças

Cutucando ocês...

Esta é uma cutucada acanhada, mas cutucada, em todos aqueles que participam de trocas de e-mails, sem quase nunca teclar um comentário, até mesmo quando inquiridos diretamente, limitando-se a simplesmente receber e reenviar aquilo de que gostou e às vezes até do que não gostou... que circulam num mundo de fantasias, de luzes coloridas acendendo e apagando, fadinhas, anjinhos entremeados com orações a muitas Santinhas peregrinas, e bonequinhos graciosos, e interminaveis cenas de sexo robotizado entre uma 'fornecedora' ou várias, (surubim é lá no Nordeste, minha senhora) e um personagem mangueirado com pinta de parkinsoniano, tal a sua ausência de qualquer expressão de prazer naquilo que está 'fazendo'...pois sexo, definitivamente, não é aquilo...
Em todo o caso, como cada um dá o que tem, vamos em frente...cada um se comunica como quer...mas quem sabe vocês não perdem a inibição, seguram os ponteiros de seu relógio do Chapeleiro Maluco e tentam se comunicar teclando um pouco de suas próprias emoções, como aliás o faz o admirável amigo meu Mendonça...Afinal, o rio caudaloso sempre nasce de um filete de água...Tentem! Não tira pedaços...

Uma janela de banheiro (SRebouças)


Uma coisa simples, uma janela de banheiro, talvez não merecesse mais que um olhar de aprovação ou não, a colocação nela de um vidro azul ao invés do transparente ou fosco convencional. Há muitos anos morei numa casinha antiga, daquelas de duas portas estreitas ao invés de uma larga, e cada folha tinha uma portinhola meia altura, defendida por uma grade de ferro e uma moldura de madeira com um vidro igual ao desta fotografia.
Porquê que eu nunca mais esqueci aquelas portas? Porquê a luz do dia filtrava através e chegava ao hall com uma luminosidade azul que lembrava um adro de igreja. Transmitia paz a quem ali passasse. As coisas simples não são necessáriamente as mais dispendiosas, nem as melhores fotografias nascem sempre de elaborações de estúdio...

20 agosto 2006

A Velha Faculdade (SRebouças)

Apresento-lhes a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, na Praia Vermelha.
Apresento-lhes, apenas. Guardem-na na lembrança, ela que foi demolida, sendo aquela imensa área murada...e nada mais construído no local. País infeliz e carente de homens e de políticos, carente de tradições, carente de bom senso, rico em ladroeiras, trapaças e desperdícios...
Só faltou jogar sal grosso no terreno, como fizeram após esquartejarem Tiradentes, à maneira da época, como fizeram com inúmeros obscuros condenados...Deus há de castigar os autores de uma tal infâmia.Gerações e gerações de médicos ali se formaram, muitos projetados profissionalmente no cenário médico nacional e internacional. Adeus FNM/UB !...Sua memória, em cacos, vai aos poucos sendo sepultada, junto com aqueles que a conheceram e foram por ela abrigados em seus inícios de vida profissional. Ou nas fotos como esta, que não traduzem uma mera parte de todo o calor humano que dela emanava... Saudades!...

14 agosto 2006

Fica o Cachepot... (SRebouças)




Vindos do quase nada
passamos a ser e, sendo, vivemos mais
intensamente ou não; aqui nesta velha
foto - ou photo, estão retratados cinco universos e destes cinco hoje vivo resta
só um.
Cada um deles teve um sonho,talvez uma quimera, sofreu os não podes
de sua época...Brigou, amou, desejou, fez planos, deixou-se levar pelo marasmo, ou criou coisas do nada de seus sonhos e fez travessuras dentro do seu tempo, do seu ciclo...mas possívelmente unidos todos sempre pelo santíssimo sacramento da família - e nem podia então ser diverso.
Ao fundo a samambaia, dentro de um cachepot de latão ri, sabendo
que ela, ao menos, um dia voltará.
hesseherre