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06 junho 2010

Uma nostalgia do dr. Panico....Curtam!!!

        
 De volta à minha cidade natal, após longa ausência, não surpreso constatei que as áreas que margeavam a rodovia, antes ocupada pelo cerrado, haviam dado lugar à agricultura industrializada. Esse tapete de várias tonalidades verde, entrecortado por plantações de eucaliptos, se perdia no horizonte. Envolvido pela brisa que trazia o aroma das folhas dessa árvore comum na região, voltei ao passado distante, quando ainda jovem de periferia, a caminho da escola, me deparava com os trabalhadores rurais carregando os seus pesados instrumentos de trabalho. Nesse mundo de transformações, quase meio século após, presenciei a mesma cena no agreste mexicano. Desde então, passei do prazer à angustia, que só foi deixada de lado quando fui recebido de maneira amável por um amigo de infância que trabalhava no hotel em que fiquei hospedado:
          - Que bom ver o doutô por estas bandas. A gente sente saudades dos contos do sinhô.
         Da varanda do meu quarto, passei a admirar o arco-íris embelezando ainda mais o pôr do sol. Aquela imagem me reservaria um momento sublime ao perceber que o piscar das estrelas anunciava a presença da lua cheia, que com seu esplendor agradecia a admiração de seus súditos. Depois de conviver com o encanto daquele quadro criado por Deus, fui ao encontro da minha irmã. Ao chegar à sua casa, depois de cumprimentar os parentes, puxei a cadeira para perto dela e fiquei atento às suas histórias. O tempo passou rápido e já era tarde da noite quando voltei para o hotel.
          No dia seguinte, iria visitar o compadre, homem simples e de sensibilidade apurada a fazer inveja a pensadores.
          Ao ser recebido com um abraço saudoso do velho amigo, observei que os móveis da sala haviam sido trocados. Eles eram rústicos e de muito bom gosto, o que tornava o ambiente propício à conversa. O aroma do café feito no fogão à lenha e do famoso bolinho de milho que a comadre fazia com esmero tornou o saudosismo ainda mais presente em nossa conversa. Depois de relembrarmos passagens da nossa juventude, o compadre perguntou-me:
          - Por onde andou o “o cigano”?
          - Eu visitei Cancun, em companhia da mulher e filha.
          - O que você viu de diferente por aquelas bandas?
          - As paisagens e um povo extraordinário. 
          - O velho amigo falou pouco, mas falou certo. Quando eu voltava dos meus “bordejos” pela redondeza, eu tinha sempre uma novidade para contar.
          - As viagens não deixam de ser as escolas do tempo.
           - O que mais gostou dessa “universidade”?
           - A visita a Chicchen Ilza.
           - Que nome complicado é esse, compadre?
           - É a mais famosa cidade da civilização Maya, embora a mais bela seja Tulum.
           - Como eram as pessoas daquela época?
           - Segundo os historiadores, eles tinham estatura baixa e as classes sociais de maior poder aquisitivo conservavam o hábito de comprimirem o crânio dos recém-nascidos para que eles ficassem bonitos.
           - O ser humano sempre teve uma obsessão pelo belo.  Por falar nisso, não é de hoje que tenho observado, principalmente entre os jovens, o corpo pintado com figuras, que deve representar algum tipo de questionamento em algum momento de suas vidas. 
           - Não poderia ser apenas um modismo, compadre?
           - Quem sabe, velho amigo.
           -  Na civilização Maya, os sacerdotes  tinham um verdadeiro fascínio  pela serpente.  
           - Esse “bicho” de andar rasteiro já era danado desde a antiguidade.
           - Um costume desta civilização me deixou triste. 
           - Conta essa desgraça de uma vez.
             - Os sacerdotes retiravam o coração da jovem mais bonita para que o povo fosse possuído da sua beleza. 
           - Fatos semelhantes mostram que algumas pessoas não compreendem que o perfume que embriaga o ser humano vem da alma.
           - Talvez sejam as dificuldades de conviver com seus semelhantes que tenham se exacerbado diante das constantes mudanças nos hábitos da sociedade.
          Naquele momento, achei que deveria lhe contar um sonho que tinha relação com fatos narrados dessa viagem:
           - Após a visita às ruínas, voltei para o hotel para descansar daquele dia cansativo, e acabei tendo um pesadelo em que o sacerdote queria a todo custo cortar a minha “serpente”.
           - Eta desgraça, compadre!
           Ao observar que ele protegia, com uma das suas mãos, a velha “serpente” adormecida, achei por bem não estender a narrativa, que tinha requintes de terror.
           - Sabe que eu acabei acordando antes do fato consumado.
           Passando o lenço na testa, ele disse num tom de alívio:
           - Deus é pai. Nos sonhos como na vida, não devemos perder a esperança, mesmo com a “cabeça” posta a prêmio. 
           Naquele momento, a comadre entrou na sala e nos serviu uma famosa bagaceira da região. Depois de um brinde à velha amizade, com o corpo aquecido e a alma solta dos grilhões daquele mundo de horror, ele encerrou o assunto com mais uma das suas inspirações:
           - Meu velho amigo esse “animal de andar rasteiro” e a “maçã”, desde época de Adão e Eva, têm tido encontros e desencontros, mas no final o amor sempre prevaleceu.
                                   
                                      
                                         Luiz Fernando Panico
                                          Ginecologista / Obstetra

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