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18 outubro 2010

A DOR QUE NUNCA PASSA (e nós a deixamos passar)

Neste post não acrescentaremos fotos - não são necessárias; quem ler estas palavras de MARINA fica verde de VIDA...


A DOR QUE NUNCA PASSA




MARINA SILVA -


De Brasília (DF)


Nos anos 1970, quando abriam a BR-364 no Acre, ela cortou ao meio o
Seringal Bagaço, onde eu morava com minha família. À derrubada da mata
seguiu-se uma epidemia violenta e incontrolável de sarampo e malária. Era
gente doente ou morrendo em quase todas as casas. Perdi um primo e meu tio
Pedro Ney, que foi uma das pessoas mais importantes da minha infância.
Morreu minha irmã de quase dois anos e, quinze dias depois, outra irmã, de
seis meses. Seis meses depois, morreu minha mãe. Tudo era avassalador,
assustador. Uma dor enorme, extrema, que nunca passou. Para sair disso,
tivemos que reconstruir, praticamente, o sentido inteiro do mundo. Aceitar
o inaceitável, mas carregá-lo para sempre dentro de si. Ir em frente,
enfrentar a dureza do cotidiano, sobreviver, cuidar dos outros. Viver,
enfim, e dar muito valor à vida e às pessoas.
Em 1985, numa das maiores enchentes do rio Acre em Rio Branco, eu morava
no bairro Cidade Nova, na periferia da cidade, numa pequena casa de onde
tivemos que sair às pressas, levando o que foi possível numa canoa. O
resto foi levado pelas águas, inclusive o único retrato que tínhamos de
minha mãe.
Penso agora nisso tudo e acho que consigo entender o que sentem os
catarinenses, mas ainda estou longe de alcançar o significado estarrecedor
de uma perda tão total e instantânea como a que sofreram. Na escuridão, o
morro descendo, destruindo tudo, a busca desesperada pelos filhos, a
impotência. E, depois, descobrir-se só em meio ao caos: acabou a casa,
foram-se as pessoas amadas, o lugar no mundo. Não há mais nada, só a vida
física e a força do espírito.
Meus filhos andam pela casa com todo vigor, com toda a beleza da
juventude, e sequer consigo imaginar o que seria, de uma hora para outra,
vê-los engolidos pela terra, debaixo de toneladas de escombros ou
mutilados para o resto da vida. É algo terrível demais até no plano da
imaginação. Fere a própria alma tão fundo que chega a ser impossível
entender plenamente a profunda tristeza de quem enfrenta essa realidade.
Na Londres de 1624, os sinos da catedral de São Paulo, onde o poeta John
Donne era o Deão, tocavam quase ininterruptamente anunciando as milhares
de mortes causadas pela peste. Atingido por grave enfermidade (que chegou
a ser confundida com a peste) Donne escreveu então um de seus textos mais
conhecidos, a Meditação XVII: "Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si
mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for
levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim
como se fosse uma parte de teus amigos ou mesmo tua; a morte de qualquer
homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca
mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti."
Hoje, no mundo, os sinos dobram por todos nós e para nos acordar. Grandes
desastres podem virar acontecimentos corriqueiros. Não se pode afirmar
peremptoriamente que a tragédia de Santa Catarina deriva, em linha direta,
das mudanças climáticas identificadas no relatório do IPCC, o Painel
Internacional de Mudanças Climáticas da ONU. Mas em tudo se assemelha às
previsões de possíveis impactos da mudança no clima do sul do Brasil, até o
final do século 21.
A natureza, numa pedagogia sinistra, parece exemplificar o que significam
esses fenômenos extremos que, em várias regiões do planeta, tenderão a
provocar períodos de seca muito mais severos e outros com precipitações
intensas.
As ações de mitigação necessárias e as adaptações para enfrentar esses
efeitos e reduzir nossa vulnerabilidade diante deles ainda são precárias e
estão atrasadas. Os países ricos, detentores de recursos, conhecimento e
tecnologia, já avançam em medidas para se proteger. As piores
conseqüências deverão recair sobre os países pobres e os em
desenvolvimento. A urgência é auto-explicável. Não é um cientista quem o
diz e nem um livro. É a natureza, cujos avisos e alertas têm sido
insanamente ignorados.
O Brasil, que ontem lançou o seu Plano Nacional de Mudanças Climáticas,
não tem como deixar de fazer a sua parte, mesmo sem os meios disponíveis
nos países ricos. O acontecido em Santa Catarina é um sintoma e deve ser
seguido de um esforço de grandes proporções, de início imediato, para
tentar evitar que se repita.
É preciso que cada um de nós, autoridades públicas, empresas e cidadãos,
pensemos nos mortos, nas famílias inteiras soterradas, nas vidas
destroçadas debaixo do barro, antes de sermos tolerantes com ocupação em
encostas, com destruição de matas ciliares, com o adensamento de áreas de
risco, com mudanças de conveniência nas legislações. Não há mais espaço
para empurrar os problemas ambientais com a barriga, como tentam fazer
alguns, e deixar para "o próximo" o ônus de medidas ditas
antipáticas. A omissão que ceifa vidas humanas tem que acabar, mesmo à custa de
incompreensões.
Nos tempos atuais, há mais um componente na agenda ética: não se deixar
corromper diante das pressões para ignorar a proteção ambiental e as
medidas de precaução exigidas pela intensificação dos fenômenos naturais.
Quem detém algum tipo de representação pública deve se convencer de que é
preciso mudar profunda, rápida e estruturalmente os usos e costumes, de
modo a preparar o País para um futuro de sérios desafios ambientais. Cada
vez mais, não é só uma questão de errar, corrigir o erro e aprender com
ele. Agora a palavra de ordem é prevenir o erro, para que não se repitam
os olhares perdidos, os rostos esvaziados, o choro inconsolável, a
desesperança e as mortes que vimos nesses últimos dias em Santa Catarina.


Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre
e ex-ministra do Meio Ambiente e candidata a Presidente do Brasil, colocada em 3º LUGAR.

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