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05 dezembro 2012

A insustentável leveza do ser ISABEL VIEIRA

CASA DO ANÃOZINHO (na janela)

A insustentável leveza do ser IV

Quando cheguei à Rua da Casa Amarela e entrei na casa da tia Ermelinda, o gato estava à janela. Quieto, muito quieto a olhar o mundo, com olhos de gato. Na janela da vizinha, em frente, o gato dela também observava o mundo lá fora. Com olhos de gato. Sem dúvida. A tia Ermelinda teve que passar pela rua onde está o gato da vizinha e seguiu em frente. O gato dela conhecia todos os seus passos. O que ele não sabia é que iria ter outra dona para ver sair e entrar. Outra dona! Outra forma de amar. E o gato 

da tia Ermelinda só conhecia uma, a dela. Aquele enroscar nos seus braços, misturado com o cheiro suave do perfume dela.
Ali estava eu. O gato nem se mexeu quando eu entrei. Estava tudo tão leve e tão doce! De uma doçura de fim de tarde.
No chão, a tia Ermelinda tinha deixado a comida para o gato. Ou se esqueceu de lha pôr no prato ou foi ele que já tinha acabado com tudo. No entanto, continuava a olhar para o ponto por onde a tia Ermelinda tinha desaparecido. Os filhos esperavam-na sem o gato. Eu já sabia e fiz questão de ficar com ele.
Sentei-me, no chão, a um canto, a olhar. Olhei o vazio que não tinha nada de vazio e saboreei tudo naquele quarto. Tudo, tudo. Desde a cor até ao formato das tábuas corridas que cobriam o soalho. Sempre gostei de soalhos assim: com tábuas da cor das paredes. Aquele amarelo Outonal e vadio. Porque as outras casas também eram iguais. A cor a esmorecer, rente ao beirado do telhado. Foi por isso que escolhi aquela rua e aquela casa. Se não gostasse, ficava com o gato na mesma. Isso já era ponto assente na minha cabeça de ?andorinha ?desmiolada.
A tia Ermelinda tinha deixado a janela grande aberta, a janela que dava para a casa da vizinha. Foi tudo por causa do gato. Do gato da vizinha que também gostava das festas que ela lhe fazia quando lá ia a casa. Eu espreitei o mundo, lá fora, como se também fosse um gato e vi a massa das árvores lá, ao fundo. A casa que elas quase tapavam também era amarela, Outonal, mas tinha as janelas todas fechadas. Não conseguia, àquela distância, saber se havia gatos nas janelas ou não. Mesmo que houvesse, não era por aquela rua que a tia Ermelinda iria passar. Os gatos, se lá estivessem, só poderiam estar a ver os outros gatos e a deixarem-se contagiar pelo silêncio que não era de ouro, mas de prata. Não precisamos de um silêncio de ouro quando as casas são todas de um amarelo dourado, a morrer junto do beirado do telhado. Há urgência em gritar o silêncio através das nuvens. Daí o contágio e transformação do silêncio e a urgência em respeitar todos os silêncios: os nossos, os das ruas, os das casas, o silêncio do céu, das árvores e o silêncio de prata dos gatos.
Escusado será dizer que só me sentei a um canto do quarto no fim de espreitar o mundo lá fora. Foi assim que o silêncio ganhou raízes fortes em mim. Vinha de fora para dentro. Era impossível resistir-lhe. Eu só consigo resistir ao silêncio que brota de dentro de mim.  Com esse faço gato e sapato.
Sentada, no tal canto, com as pernas flectidas e com o rosto inclinado sobre os joelhos, não penso em nada. Abano a cabeça de um lado para o outro e aspiro o calor morno do meu corpo. E deixo-me ficar nesta modorra enfunada do céu que trouxe quando estive a espreitar pela janela. Já devia ser quase noite quando dei por ela.
O gato da tia Ermelinda começou a miar, junto da lata!
Esvaziei a lata. Só no fim é que fui buscar as minhas coisas à cozinha. Pelo caminho fora só ouvia o barulho dos tacões dos meus sapatos no soalho. Percorri a casa toda, calçada. Era delicioso ouvir o barulho dos tacões dos meus sapatos.
Voltei ao quarto.
O rodapé do quarto era igual aos outros todos que havia na casa
O amarelo das paredes acertava-se com a esquadria da janela aberta.
Passou-se tudo ontem e continua hoje pelo soalho fora
O ruído dos meus passos acorda o céu que range gotas de infinito. Agora 
Deixei-me levar pelo mel das ruas e pela ausência de encostas escancaradas
A gotejar sementes de frutos silvestres dos que vivem na minha memória
Eu só queria imaginar a descontinuidade das pedras a começar pelo nada
Que se abre nas nuvens em clareiras ovais de misericórdia.
 Não me apetecia mexer em nada neste quarto. Ainda não! Por isso, voltei para a janela 

aberta e pus os meus braços a toda a volta do corpo do gato.
Dormi toda a noite, mais uma vez, num colchão estendido no chão. Sem mais nada. Só com 

o gato.

04-12-2012
Isabel Vieira

Um comentário:

  1. Esta é uma das formas de me encontrar em coisas que já vêm muito lá detrás... O tempo não existe, Sérgio! Apesar de dar pelas minhas mudanças, encontro sempre o mesmo fio condutor. E isto eu não te disse no mail. Acho que tenho em mim todos as almas do mundo... O que escrevi, deve ter-se passado em algum lado.

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