Sabes Jaquinha, acordei fresquinha, vim aqui, como faço todos os dias ao
acordar - ossos do ofício - e encontrei o teu e-mail que me fez tão bem.
Suscitou-me tanta coisa que seriam precisos dias e dias para te contar o que me
fez sentir e pensar, todos os locais e recantos por onde me levou a viajar. E
acima de tudo, e mais importante que tudo, o retorno ao mais fundo de mim. Um
encontro com a alma.
Às vezes as palavras não são nada, apenas sons que nos chegam, repletas de
significantes mas vazias de significado, sem que nos toquem a pele.
Li-te e senti que a minha carapaça te deixava entrar por ela adentro. Sou
um fruto de casca rija. Preciso dela para me defender porque na verdade sou
frágil. Resistente mas frágil. Parto-me com facilidade, embora também me
regenero com alguma rapidez porque acredito. Obviamente que as mossas vão
ficando. Acredito em muitas coisas. Não num Deus, não numa fé no seu sentido
tradicional, não nas instituições, mas em tudo o que me rodeia. São os olhares,
as mãos, os sorrisos, os afectos na suas mais diversas formas variantes,
tonalidades (e neles incluo as palavras), as músicas, os livros, a natureza e
talvez até este meu lado pueril e infantil (não infantiloide creio) que me
permitem acreditar que as lutas que travo diariamente valem a pena. Procuro não
pensar na extensão do caminho a percorrer, mas antes que cada passo que dou
diariamente, por pequeno que seja, reduz a distância que me separa do fim da
estrada. Nos dias de vendaval, que me empurram para trás, anulando os progressos conseguidos, faço um esforço, procuro estratégias dentro de mim, para que no
momento em que pouso a cabeça na almofada, possa adormecer com a convicção de
que amanhã é outro dia e que tudo será diferente, que terá que ser melhor porque
não é possível que a vida não dê tréguas. Em algum momento terá que o fazer.
A minha fé são as coisas boas que me rodeiam. A minha fé está em pensar que
depois de atenuadas as dores que nos causam os trambolhões e as vagas que nos
derrubam, algo de positivo surgirá. Terei crescido. Terei ganho tolerância,
sensibilidade para ver o mundo com outros olhos, não apontar dedos nem fazer
julgamentos precipitados sustentados por aparências. Cada um de nós é um mundo
por desvendar e jamais o conheceremos na sua totalidade até porque aquilo que
somos hoje difere do que éramos na véspera.
Tenho dias em que julgo apenas conseguir vislumbrar o cinzento do céu, em
que as noites não terminam, mas olhando para eles na distância, algo terá que
existir dentro de mim que não me deixa render-me à escuridão que me envolve por
vezes, ao silêncio avassalador que toma conta de tudo em meu redor.
E as palavras que te escrevi ontem e as que te escrevo hoje são para que as
guardes só para ti no teu coração, se gostaste delas. Todas as pessoas de quem
gostamos devem ter uma parte de nós que é exclusivamente sua, da mesma forma que
ocupam no nosso coração um lugar que é só seu e não comparável ao espaço que
outros também ocupam porque cada um é um, exclusivo e único.
Beijinhos para ti e aos poucos acho que te vou contando das viagens que fiz
embalada no teu e-mail que te agradeço tanto e tanto.

Só agora é que vi este texto da Lagartixa! Já tinha lido outro, um dia destes. Só posso dizer que, além de bem escrito, é uma alma que se abre de uma forma genuína!
ResponderExcluirNão entendo porque não estão visíveis os comentários.
ResponderExcluirBeijos Isabel. Muitos...tantos!
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