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11 dezembro 2012

CONVERSAS COM UMA LAGARTIXA PORTUGUESA








Sabes Jaquinha, acordei fresquinha,  vim aqui, como faço todos os dias ao acordar - ossos do ofício - e encontrei o teu e-mail que me fez tão bem. Suscitou-me tanta coisa que seriam precisos dias e dias para te contar o que me fez sentir e pensar, todos os locais e recantos por onde me levou a viajar. E acima de tudo, e mais importante que tudo, o retorno ao mais fundo de mim. Um encontro com a alma.
Às vezes as palavras não são nada, apenas sons que nos chegam, repletas de significantes mas vazias de significado, sem que nos toquem a pele. 
Li-te e senti que a minha carapaça te deixava entrar por ela adentro. Sou um fruto de casca rija. Preciso dela para me defender porque na verdade sou frágil. Resistente mas frágil. Parto-me com facilidade, embora também me regenero com alguma rapidez porque acredito. Obviamente que as mossas vão ficando. Acredito em muitas coisas. Não num Deus, não numa fé no seu sentido tradicional, não nas instituições, mas em tudo o que me rodeia. São os olhares, as mãos, os sorrisos, os afectos na suas mais diversas formas variantes, tonalidades (e neles incluo as palavras), as músicas, os livros, a natureza e talvez até este meu lado pueril e infantil (não infantiloide  creio) que me permitem acreditar que as lutas que travo diariamente valem a pena. Procuro não pensar na extensão do caminho a percorrer, mas antes que cada passo que dou diariamente, por pequeno que seja, reduz a distância que me separa do fim da estrada. Nos dias de vendaval, que me empurram para trás, anulando os progressos  conseguidos, faço um esforço, procuro estratégias dentro de mim, para que no momento em que pouso a cabeça na almofada, possa adormecer com a convicção de que amanhã é outro dia e que tudo será diferente, que terá que ser melhor porque não é possível que a vida não dê tréguas. Em algum momento terá que o fazer.
A minha fé são as coisas boas que me rodeiam. A minha fé está em pensar que depois de atenuadas as dores que nos causam os trambolhões e as vagas que nos derrubam, algo de positivo surgirá. Terei crescido. Terei ganho tolerância, sensibilidade para ver o mundo com outros olhos, não apontar dedos nem fazer julgamentos precipitados sustentados por aparências. Cada um de nós é um mundo por desvendar e jamais o conheceremos na sua totalidade até porque aquilo que somos hoje difere do que éramos na véspera.
Tenho dias em que julgo apenas conseguir vislumbrar o cinzento do céu, em que as noites não terminam, mas olhando para eles na distância, algo terá que existir dentro de mim que não me deixa render-me à escuridão que me envolve por vezes, ao silêncio avassalador que toma conta de tudo em meu redor.
E as palavras que te escrevi ontem e as que te escrevo hoje são para que as guardes só para ti no teu coração, se gostaste delas. Todas as pessoas de quem gostamos devem ter uma parte de nós que é exclusivamente sua, da mesma forma que ocupam no nosso coração um lugar que é só seu e não comparável ao espaço que outros também ocupam porque cada um é um, exclusivo e único.
Beijinhos para ti e aos poucos acho que te vou contando das viagens que fiz embalada no teu e-mail que te agradeço tanto e tanto.

3 comentários:

  1. Só agora é que vi este texto da Lagartixa! Já tinha lido outro, um dia destes. Só posso dizer que, além de bem escrito, é uma alma que se abre de uma forma genuína!

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  2. Não entendo porque não estão visíveis os comentários.

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