A cada palavra dura que gritava via-me descontrolada. Não proferi uma única sílaba que não fosse sentida, nada me saiu boca fora fruto da raiva daquele instante. Tinha-as todas guardadas, recalcadas, aguardando o momento em que as não pudesse mais conter. Sabia que um dia as proferiria. Um qualquer dia. Ouvia-me louca cuspindo a minha alma em altos berros, caminhando de um lado para outro, sem intenção de abandonar a sala enquanto não me faltasse o fôlego.
São estes momentos que fazem com que nunca te abandone. Termino em lágrimas. Às vezes num choro convulsivo, para descobrir que cada dia gosto mais de ti, que a cumplicidade entre nós estende-se sem reservas.
Cresci na contenção. Afundada em silêncios mortais, devastadores, que tudo matam em seu redor como uma praga, alastrando. Adensando o ar irrespirável.
Não sei viver de silêncios, frases escusas, enigmáticas, meias palavras. Não ditos que nos dilaceram e nos largam sós a adivinhar o que se oculta nos olhares.
Prefiro a dureza das palavras que magoam, que nos deixam tantas vezes de alma esfrangalhada mas são algo que nos dão.
O meu silêncio seria fuga, comodismo, desinteresse, cansaço. Ou pior, a indiferença.
Entendes por que por vezes não me contenho? Não contigo.
Regresso a casa. Encontro-te deitado, agarrado ao cão. Olhas para mim em silêncio. Deito-me ao teu lado. Aninhaste a mim. Continuamos em silêncio. Abraço-te com força e desatas a chorar. Deixas cair as ganas que se seguraram na minha ausência. Entre soluços juramos jamais nos zangar. Prometes esforçar-te. Prometo não voltar a gritar. Dizes que não podes viver sem mim. Perderias o norte, não saberias caminhar, por onde seguir. Digo-te que és a minha vida, a minha razão de viver, que tenho medo de falhar, que sou responsável por ti.
Não posso calar-me, entendes? Não contigo. Se me calasse como poderia seguir aproveitando cada minuto da nossa vida? Como poderia cobrir-te de beijos e abraços, brincar, dançar, correr e andar aos saltos contigo, chapinhar nas poças de águas nos dias de chuva como fazíamos quando eras pequenino, contar anedotas, dizer disparates e fazer palhaçadas que nos fazem rir até doer a barriga? Onde ficariam os nossos jantares de porcaria em que nos lambuzamos com cachorros num pão de forma horroroso atulhados de maionese e os piqueniques na cama a ver o Tintim e os Poirrots pela centésima vez? Se me calasse não saberíamos ler os olhares um do outro, falar com as mãos, com as músicas que são só nossas, ter os nossos segredos. Se me calasse não cresceria contigo, não saberia como te ler a alma, não conheceria cada milímetro do teu ser, não poderia adivinhar-te os pensamentos quando não te sabes explicar. Não posso calar-me entendes? Quando grito estou assustada, sinto o chão fugir-me debaixo dos pés. Tenho medo. Não sei que fazer contigo às vezes, como te orientar, como te ajudar quando estás infeliz e os meus beijos e abraços não te chegam para aliviar a dor que sentes. Preciso da tua ajuda, sem ela não sei como te tornar um homem forte, íntegro, feliz. Ninguém me ensinou a ser mãe...


As imagens complementam o texto...conferem-lhe intensidade e beleza. Introduzem-no, acompanham-no...
ResponderExcluirObrigada por tanto mimo. Beijos apertados num abraço profundo.