A verdade: eu
menti
Mirian Macedo
Eu, de minha parte, vou dar uma contribuição à
Comissão da Verdade. Fui uma subversivazinha medíocre, mal fui aliciada e já
caí, com as mãos cheias de material comprometedor. Não tive nem o cuidado de
esconder os jornais da organização clandestina a que eu pertencia, eles estavam no meio dos
livros de uma estante, daquelas improvisadas, de tijolos e tábuas, que existia
em todas as repúblicas de estudantes, em Brasília naquele ano de 1973.
Já contei o que eu fazia (quase nada). A minha verdadeira ação revolucionária foi
outra, esta sim, competente, profícua, sistemática: MENTI DESCARADAMENTE DURANTE
30 ANOS!
Repeti e
escrevi a mentira de que
tinha tomado choques elétricos (poucos, é verdade), que me interrogaram com
luzes fortes, que me ameaçaram de estupro quando voltava à noite dos
interrogatórios no DOI-CODI para o PIC e que eu ficavam ouvindo "gritos
assombrosos" de outros presos sendo torturados (aconteceu uma única vez, por
pouquíssimos segundos: ouvi gritos e alguém me disse que era minha irmã sendo
torturada. Os gritos cessaram - achei, depois, que fosse gravação - e minha
irmã, que também tinha sido presa, não teve um único fio de cabelo
tocado).
Eu menti
dizendo que meus algozes diversas vezes se divertiam jogando-me escada abaixo,
e, quando eu achava que ia rolar pelos degraus, alguém me amparava (inventei um
trauma de escadas", imagina). A verdade: certa vez, ao descer as escadas até a
garagem no subsolo, alguém me desequilibrou e outro me segurou, antes que eu
caísse.
Quanto aos empurrões de que eu fui
alvo durante os dias de prisão, não houve violência nem chegaram a
machucar nada mais que um gesto irritado de um dos inquisidores, eu os
levava à loucura, com meu enrolation. Sou rápida no raciocínio, sei manipular as
palavras, domino a arte de florear o discurso. Um deles repetia sempre: "Você é
muito inteligente. Já contou o pré-primário. Agora, senta e escreve o resto".
Quem, durante todos estes anos,
tenha me ouvido relatar aqueles
dias em que estive presa, tinha o dever de carimbar a minha testa com a
marca de "vítima da repressão". A impressão, pelo relato, é de que aquilo deve
ter sido um calvário tão doloroso que valeria uma nota preta hoje, os beneficiados com as indenizações da
Comissão da Anistia sabem do que eu estou
falando.
Ma va! Torturada?! Eu?! As
palmadas que dei na bunda de meus filhos podem ser consideradas tortura inumana
se comparadas ao que (não) sofri nas mãos dos agentes do DOI-CODI.
Que teve gente que
padeceu, é claro que teve. Mas alguém acha que todos nós que saíamos da cadeia
contando que tínhamos sido barbaramente torturados falávamos
a verdade?
Não,
não é verdade. Noventa e
nove por cento das barbaridades e
torturas eram pura mentira! Por Deus, nós sabemos disto! Ninguém
apresentava a marca de um beliscão no corpo. Éramos barbaramente torturados e
ninguém tinha uma única mancha roxa para mostrar! Sei, técnica do torturadores.
Não, técnica de torturado, ou seja, mentira.
Mário Lago, comunista até a morte, ensinava:
"quando sair da cadeia, diga que
foi torturado. Sempre." A pior coisa que podia nos acontecer naqueles
"anos de chumbo" era não ser preso. Como assim, todo mundo ia preso e nós não?
Ser preso dava currículo,
demonstrava que éramos da pesada, revolucionários perigosos, ameaça ao regime,
comunistas de verdade! Sair dizendo que tínhamos apanhado, então! Mártires,
heróis, cabras bons.
Vaidade e mau-caratismo puros, só
isto. Nós saímos com a aura de
hérois e a ditadura com a marca da violência e arbítrio. Era mentira?
Era, mas, para um revolucionário comunista, a verdade é um conceito burguês,
Lênin já tínhamos nos ensinado o que fazer.
E o que era melhor: dizer que
tínhamos sido torturados escondia as patifarias e amarelões que nos acometiam
quando ficávamos cara a cara com os "ômi". Com esta raia miúda que nós éramos,
não precisava bater. Era só ameaçar, a gente abria o bico rapidinho.
Quando um dia perguntaram-me se eu
queria conhecer a marieta, pensei que fosse uma torturadora braba. Mas era
choque elétrico (parece que marieta era uma corruptela de maritaca (nome que se
dava à maquininha que rodava e dava choque elétrico). Eu não a quis conhecer.
Relembrar estes fatos está sendo
frutífero. Criei coragem e comecei a ler um livro que tenho desde 2009 (é mais
um que eu ainda não tinha lido): "A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasil
conheça", escrito pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra. Editora
Ser, publicado em 2007. Serão quase 600 páginas de verdade sufocada"? Vou
conferir.
A autora é Jornalista. Publicado no
blogda
autora
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