...é perder uma perna, um braço…
Sei muito pouco sobre os Açores. Quase nada. Mas quando penso neles o meu coração agita-se sempre um bocadinho. Não há nada que me ligue ao arquipélago para além das primeiras recordações que tenho de mim, poucas e vagas. Mas o meu coração agita-se na mesma e eu julgo saber por que isso acontece.
Sei, sem estar bem certa de onde me vem isto, (talvez tenha lido), que os ilhéus quando partem levam consigo uma saudade diferente daquela que todos nós carregamos quando pegamos na vida e abalamos.
Eles deixam para trás, espalhadas, partes do seu corpo, como se tivessem com as ilhas uma ligação tão forte que sair é deixar uma perna, um braço, um pedaço qualquer de si que os impede de prosseguir inteiros por onde quer que caminhem. Estão, por isso, em qualquer lado e permanentemente lá ao mesmo tempo. Arrastam os pés, distantes, mancos e aleijados, com a alma incompleta.
É como se as ilhas fossem a mãe e eles, os filhos ainda envoltos na sua placenta que os veste sempre. E voltam, têm que voltar, ou vivem desse sonho, como quem não resiste a um chamamento. É talvez o mar, o verde, a vontade de sentir o cheiro da mãe, as suas mãos que os afagaram anos e anos, que os faz sentir assim.
Saí de Angra do Heroísmo com cinco anos e apenas regressava, esporadicamente, quando os meus pais, geralmente em dias especiais, e, por isso, transbordantes de tantos afectos, enlaçados num espírito de saudade e saudosismo, falavam da época em que lá vivemos.
Depois, eles morreram. Passaram-se muitos anos sem que ninguém me contasse nada sobre a ilha onde vivi durante dois anos. Perdi totalmente o contacto com ela.
Recentemente, vou regressando de vez em quando, sempre que o meu filho me pede que lhe fale da minha infância.
Conto-lhe que as ilhas são a chegada a casa de um ser muito pequenino, pouco maior do que os meus chorões, numa alcofa com lençóis azuis salpicados de pintinhas brancas, cujo rosto não recordo, mas que durante algum tempo habitava, a maior parte do tempo, o primeiro andar, num quarto onde não se podia fazer barulho nem entrar sem permissão, a quem chamavam o Pechinchinho, que acabou por crescer rapidamente e se tornou no meu irmão mais novo, de quem passei a gostar e com quem tenho uma ligação muito forte e próxima na distância.
São, também, as minhas tranças quase loiras, uma cara redonda e bochechuda, um bibe aos quadrados que amparava as nódoas da minha meninice estouvada. São as correrias dentro de casa. Um labirinto cheio de portas sempre abertas e divisões que comunicavam ente si, com tectos muito altos. São as escadas da cozinha que conduziam a um mundo onde nunca tive permissão para entrar. Da soleira, podia ver, lá em baixo, um vão cinzento salpicado de musgo, assustador e misterioso, ao fundo do qual havia, com toda a certeza, uma passagem para um mundo onde habitavam criaturas que me espiavam e enchiam a imaginação, quando me sabiam sozinha na cozinha, cujos movimentos quase imperceptíveis e provocadores, eu sentia e teria enfrentado e combatido não fosse a sobrancelha levantada da minha mãe a impedir-me de me aproximar dos degraus, obrigando-me a resistir à tentação de me aventurar em viagens de exploração que tanto desejava, apesar do medo.
Ainda hoje essas criaturas me visitam durante o sono, espreitando, aparecendo e desaparecendo entre frechas e frinchas, nos recantos mais escondidos dos meus sonhos, fazendo-me recordá-las, causando-me uma profunda saudade da minha infância, impedindo-me propositadamente, com a sua presença, de esquecer as ilhas, enchendo-me de vontade de lá voltar um dia.
Talvez elas habitem em todos os locais do arquipélago, se passeiem ocultas na neblina, nos dias cinzentos e húmidos, pairem no ar num misto de mistério e encantamento que talvez só exista na minha imaginação quando as vejo enfeitiçar os ilhéus, roubando-lhes pedaços da alma e do corpo, envolvendo-os em cheiros, cor e saudade, irresistíveis, para que tenham que regressar para conseguirem resgatar a sua integridade, para os fazer sorver aquele ar que lhes manterá vivo o espírito, lhes devolverá a perna e o braço que deixaram ao partir. São compelidos a voltar, movidos por uma vontade que talvez nem sempre saibam de onde lhes vem, que talvez, por vezes, nem entendam. Voltando sem saber por que voltam. Sabendo apenas que têm forçosamente que o fazer.
ANA CASTEL-BRANCO
Tradutora
Natural de Lisboa, residente no Algarve
Sei, sem estar bem certa de onde me vem isto, (talvez tenha lido), que os ilhéus quando partem levam consigo uma saudade diferente daquela que todos nós carregamos quando pegamos na vida e abalamos.
Eles deixam para trás, espalhadas, partes do seu corpo, como se tivessem com as ilhas uma ligação tão forte que sair é deixar uma perna, um braço, um pedaço qualquer de si que os impede de prosseguir inteiros por onde quer que caminhem. Estão, por isso, em qualquer lado e permanentemente lá ao mesmo tempo. Arrastam os pés, distantes, mancos e aleijados, com a alma incompleta.
É como se as ilhas fossem a mãe e eles, os filhos ainda envoltos na sua placenta que os veste sempre. E voltam, têm que voltar, ou vivem desse sonho, como quem não resiste a um chamamento. É talvez o mar, o verde, a vontade de sentir o cheiro da mãe, as suas mãos que os afagaram anos e anos, que os faz sentir assim.
Saí de Angra do Heroísmo com cinco anos e apenas regressava, esporadicamente, quando os meus pais, geralmente em dias especiais, e, por isso, transbordantes de tantos afectos, enlaçados num espírito de saudade e saudosismo, falavam da época em que lá vivemos.
Depois, eles morreram. Passaram-se muitos anos sem que ninguém me contasse nada sobre a ilha onde vivi durante dois anos. Perdi totalmente o contacto com ela.
Recentemente, vou regressando de vez em quando, sempre que o meu filho me pede que lhe fale da minha infância.
Conto-lhe que as ilhas são a chegada a casa de um ser muito pequenino, pouco maior do que os meus chorões, numa alcofa com lençóis azuis salpicados de pintinhas brancas, cujo rosto não recordo, mas que durante algum tempo habitava, a maior parte do tempo, o primeiro andar, num quarto onde não se podia fazer barulho nem entrar sem permissão, a quem chamavam o Pechinchinho, que acabou por crescer rapidamente e se tornou no meu irmão mais novo, de quem passei a gostar e com quem tenho uma ligação muito forte e próxima na distância.
São, também, as minhas tranças quase loiras, uma cara redonda e bochechuda, um bibe aos quadrados que amparava as nódoas da minha meninice estouvada. São as correrias dentro de casa. Um labirinto cheio de portas sempre abertas e divisões que comunicavam ente si, com tectos muito altos. São as escadas da cozinha que conduziam a um mundo onde nunca tive permissão para entrar. Da soleira, podia ver, lá em baixo, um vão cinzento salpicado de musgo, assustador e misterioso, ao fundo do qual havia, com toda a certeza, uma passagem para um mundo onde habitavam criaturas que me espiavam e enchiam a imaginação, quando me sabiam sozinha na cozinha, cujos movimentos quase imperceptíveis e provocadores, eu sentia e teria enfrentado e combatido não fosse a sobrancelha levantada da minha mãe a impedir-me de me aproximar dos degraus, obrigando-me a resistir à tentação de me aventurar em viagens de exploração que tanto desejava, apesar do medo.
Ainda hoje essas criaturas me visitam durante o sono, espreitando, aparecendo e desaparecendo entre frechas e frinchas, nos recantos mais escondidos dos meus sonhos, fazendo-me recordá-las, causando-me uma profunda saudade da minha infância, impedindo-me propositadamente, com a sua presença, de esquecer as ilhas, enchendo-me de vontade de lá voltar um dia.
Talvez elas habitem em todos os locais do arquipélago, se passeiem ocultas na neblina, nos dias cinzentos e húmidos, pairem no ar num misto de mistério e encantamento que talvez só exista na minha imaginação quando as vejo enfeitiçar os ilhéus, roubando-lhes pedaços da alma e do corpo, envolvendo-os em cheiros, cor e saudade, irresistíveis, para que tenham que regressar para conseguirem resgatar a sua integridade, para os fazer sorver aquele ar que lhes manterá vivo o espírito, lhes devolverá a perna e o braço que deixaram ao partir. São compelidos a voltar, movidos por uma vontade que talvez nem sempre saibam de onde lhes vem, que talvez, por vezes, nem entendam. Voltando sem saber por que voltam. Sabendo apenas que têm forçosamente que o fazer.
(Foto: Winter Road, de Filipe Franco)
ANA CASTEL-BRANCO
Tradutora
Natural de Lisboa, residente no Algarve

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