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29 dezembro 2012

SANGUE E LÁGRIMAS EM TRÊS VERTENTES. (ANA CASTEL-BRANCO)




EVOCAÇÕES DE MÃE

"Ontem de manhã estava em casa e o meu telemóvel toca por volta das dez horas. Vejo no mostrador o número de telefone da escola e, obviamente, estremeci. Do outro lado, oiço a voz aparentemente calma de Francisco. Senti a sua contenção enquanto me pedia que fosse ter com ele.
- Podes vir agora já, Mãe?
Com o nervosismo, estupidamente, encho-o de perguntas e apenas o ouço dizer baixo:
- Mãe! Por favor, podes vir?
Saio disparada de casa e vejo-o junto ao portão da escola, do lado de dentro. O seu olhar era de ansiedade. Calculo que o seu coração estremecesse a cada instante na expectativa de ver aproximar-se um automóvel preto. Os três minutos que demorei a chegar devem ter-lhe parecido uma eternidade. Estaciono e corro para ele.
Não pronuncia palavra e estende-me, por entre o gradeamento, o telemóvel partido. Pego nele e guardo-o em silêncio.
- Estás bem? - perguntei-lhe por fim.
- Não bati em ninguém, Mãe, mas olha para o telefone. Já viste? Atirei-o ao chão.
- Queres contar-me o que aconteceu?
- Agora já sei que não me dás outro. Agora já sei que me vais castigar. Vais zangar-te muito. Não quis ficar horas à espera. Zanga-te já.
Estava lívido. A muito custo continha as lágrimas e olhava à sua volta para se assegurar de que ninguém o ouvia.
Eu permanecia do lado de fora. Fiz-lhe uma festa no rosto mas ele afastou-se envergonhado. Temia que me vissem mimá-lo e que o meu gesto de carinho o fizesse desfazer-se no choro que tentava engolir. Retirei de imediato a mão e disse-lhe baixinho:
- Escuta, preciso que te acalmes. Respira fundo por favor.
- Eles provocam-me. Fazem brincadeiras estúpidas. Peço-lhes que parem e continuam. Atiravam a minha mochila de uns para os outros e quando a apanhei, lançaram-se a mim para a tirarem de novo. Não aguentei. Não acho piada, Mãe, é humilhante. Mas não bati em ninguém.
- Vamos combinar uma coisa. Tenta não pensar nisso agora. Já passou e eu sei que foste um bravo. Sei o esforço que fizeste para te controlares. Sei que não achas graça a certas brincadeiras. Não tens que achar, nem que gostar delas mas o importante agora é que te acalmes. Vais ter Educação Física. Quero que vás tranquilo para lá. Não podes correr o risco de te enervares outra vez nessa aula. Fazer o pino não é das coisas mais importantes da vida. Não faz mal se não consegues. Os teus colegas podem dar umas cambalhotas muito bonitas mas tu escreves textos maravilhosos e tens muitos outros talentos. Pensa nisso. Depois, num instante é 1h30 e em casa sentamo-nos os dois a conversar com toda a calma. Sem gritos e sem discussões.
- Achei que ias ficar furibunda comigo. Obrigado, Mãe.
- Nem todas as situações são iguais. Agora ouve, somos uma equipa, certo? Quando um fraqueja, o outro apoia. É assim que funciona. Consegues sossegar? Fazes-me esse favor?
- Consigo.
- Então, agora vai. Gosto muito de ti, sempre.
- Obrigado, Mãe. Muito obrigado.
De caminho para casa, lavada em lágrimas, pensei em minha Mãe. Como seriam os seus dias, rodeada de miúdas, suas colegas idiotas com quem nunca se integrou, que troçavam com a sua altura desproporcionada para a idade. Como seriam as noites em branco sem poder respirar com ataques de asma numa camarata fria e escura, ou isolada numa enfermaria quando as reclamações de que os seus ataques de tosse incomodavam e as vigilantes insensíveis a acusavam de histerismo, sem um mimo, nem um colo que a reconfortasse no seu desespero. Como pôde resistir à violência de a terem atirado, logo após a morte do pai, aos oito anos, para um colégio interno, austero, exalando hipocrisia e hostilidade por todos os cantos. Como teria conseguido sobreviver à constante insensibilidade da mãe que a toda hora, nos raros fins-de-semana que a visitava, a cobria de críticas e a qualificava como burra e estúpida quando os resultados não correspondiam ao esperado, que lhe dizia que era fraca e nunca chegaria a lugar nenhum, que só dava preocupações. Nem mesmo nas justificações da debilidade causada pelas noites em branco, da solidão e das saudades de casa encontrava uma palavra de afecto.
Como conseguiu viver sabendo que não cabia em lugar nenhum. Que ninguém a conhecia ou entendia. No colégio era apenas um número, o 900 e tal. Em casa, era um peso, uma preocupação, uma estranha que às vezes manifestava ideias que fugiam ao instituído e lhe valiam umas bofetadas; cuja aparência física só por si chamava as atenções, e onde estava apenas de passagem, sem pertencer verdadeiramente ali.

Vi depois um dormitório comprido, de paredes brancas, com camas de ferro, brancas também, austeramente alinhadas, todas iguais, com lençóis brancos e um cobertor, fino, pardo, onde pairava um silêncio igualmente branco, austero. Vi, numa delas, um menino tímido, que imagino franzino, encolhido de frio, porque talvez todas as suas noites fossem frias, e talvez o escuro o enchesse de medo, num abandono que nem ele próprio compreenderia e lhe tornava imensa a cama estreita.
Imaginei esse menino envergando, nos primeiros tempos, uma bata igual à de todos os outros meninos. Mais tarde, uma outra vestimenta qualquer, sombria, percorrendo ordenadamente, em silêncio, anos a fio, corredores escuros de tectos altos, vazios de tudo, numa atmosfera pesada,  soturna, onde se respirava apenas disciplina e ordem, impostas com a mesma austeridade com que se exigia o esquecimento da individualidade e do "eu" de cada um. Talvez ali não fosse apenas um número mas também não seria muito mais do que isso, ou talvez fosse menos ainda. Era certamente apenas um, no meio de tantos outros, igual a todos, conduzidos como um rebanho com uma única finalidade: amar algo que nenhuma criança de dez anos pode perceber o que é. Amar sem se sentir amado e culpando-se disso. Amar sem pedir nada em troca. Amar e não ter um beijo antes de dormir, o lençol aconchegado, um sorriso ao acordar. Amar exigindo-se-lhe sacrifícios, uns atrás dos outros, num dia dia-a-dia sem conforto, sem lhe ser permitido ser criança, ser gente, sentir, pensar, questionar. Talvez sujeito a castigos violentos, crescendo sozinho, baralhado com o que lhe acontecia, com o que a natureza desencadeava em si, culpando-se, muito provavelmente de ter um corpo, sentimentos, anseios, desejos que não compreenderia certamente, mas que certamente seriam fraquezas suas, tentações do demónio. Talvez a toda a hora temesse pecar, porque ali tudo era pecado, excepto a fé, cega e inquestionável.

Ao mesmo tempo que eu nascia, o menino transpunha a porta de um edifício que imagino gigantesco, cinzento como o granito, seguindo de mala na mão, para numa imensidão de vazios, entregue aos cuidados e caprichos de pessoas cuja única imagem que tenho é a de seres cobertos de negro, obsessivos, cruéis e hipócritas.
Nove anos mais tarde, enquanto eu jogava à bola com latas vazias e pedras da calçada, subia às árvores, espatifava botas e rasgava calças entre tombos e gargalhadas, o menino, agora adolescente, pegava novamente na mala, agora cheia de mossas, feridas, pesadelos e tantas outras coisas que não posso sequer imaginar mas que sei que inevitavelmente iria carregar, como quem carrega chumbo, a vida inteira, e partia em busca da sobrevivência."


NOTAS EXPLICATIVAS:São 3 pessoas distintas. Três histórias de vida.
Começa com um episódio recente (com 1 ano) do Francisco. Passo para o passado, falando da minha mãe e conto também a história de um outro menino que também cresceu num internato como a minha mãe. Esse menino é hoje um adulto 10 anos mais velho do que eu, que um dia me contou a sua história pedindo-me segredo. Por isso não tem nome.
Três pessoas que passam por episódios de dor, de alguma humilhação mas cujo intimo se manteve genuíno.

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