EVOCAÇÕES DE MÃE
"Ontem de manhã
estava em casa e o meu telemóvel toca por volta das dez horas. Vejo no
mostrador o número de telefone da escola e, obviamente, estremeci. Do outro
lado, oiço a voz aparentemente calma de Francisco. Senti a sua contenção enquanto me
pedia que fosse ter com ele.
- Podes vir
agora já, Mãe?
Com o
nervosismo, estupidamente, encho-o de perguntas e apenas o ouço dizer baixo:
- Mãe! Por
favor, podes vir?
Saio disparada
de casa e vejo-o junto ao portão da escola, do lado de dentro. O seu olhar
era de ansiedade. Calculo que o seu coração estremecesse a cada instante na
expectativa de ver aproximar-se um automóvel preto. Os três minutos que
demorei a chegar devem ter-lhe parecido uma eternidade. Estaciono e corro para
ele.
Não pronuncia
palavra e estende-me, por entre o gradeamento, o telemóvel partido. Pego
nele e guardo-o em silêncio.
- Estás bem? -
perguntei-lhe por fim.
- Não bati em
ninguém, Mãe, mas olha para o telefone. Já viste? Atirei-o ao chão.
- Queres
contar-me o que aconteceu?
- Agora já sei
que não me dás outro. Agora já sei que me vais castigar. Vais zangar-te muito.
Não quis ficar horas à espera. Zanga-te já.
Estava lívido.
A muito custo continha as lágrimas e olhava à sua volta para se assegurar de
que ninguém o ouvia.
Eu permanecia
do lado de fora. Fiz-lhe uma festa no rosto mas ele afastou-se
envergonhado. Temia que me vissem mimá-lo e que o meu gesto de carinho o
fizesse desfazer-se no choro que tentava engolir. Retirei de imediato a
mão e disse-lhe baixinho:
- Escuta,
preciso que te acalmes. Respira fundo por favor.
- Eles
provocam-me. Fazem brincadeiras estúpidas. Peço-lhes que parem e continuam.
Atiravam a minha mochila de uns para os outros e quando a apanhei, lançaram-se
a mim para a tirarem de novo. Não aguentei. Não acho piada, Mãe, é
humilhante. Mas não bati em ninguém.
- Vamos
combinar uma coisa. Tenta não pensar nisso agora. Já passou e eu sei que foste
um bravo. Sei o esforço que fizeste para te controlares. Sei que não achas
graça a certas brincadeiras. Não tens que achar, nem que gostar delas mas o
importante agora é que te acalmes. Vais ter Educação Física. Quero que
vás tranquilo para lá. Não podes correr o risco de te enervares outra vez
nessa aula. Fazer o pino não é das coisas mais importantes da vida. Não faz mal
se não consegues. Os teus colegas podem dar umas cambalhotas muito bonitas mas
tu escreves textos maravilhosos e tens muitos outros talentos. Pensa nisso.
Depois, num instante é 1h30 e em casa sentamo-nos os dois a conversar com
toda a calma. Sem gritos e sem discussões.
- Achei que ias
ficar furibunda comigo. Obrigado, Mãe.
- Nem todas as
situações são iguais. Agora ouve, somos uma equipa, certo? Quando um fraqueja,
o outro apoia. É assim que funciona. Consegues sossegar? Fazes-me esse favor?
- Consigo.
- Então, agora
vai. Gosto muito de ti, sempre.
- Obrigado,
Mãe. Muito obrigado.
De caminho para
casa, lavada em lágrimas, pensei em minha Mãe. Como seriam os seus dias, rodeada de
miúdas, suas colegas idiotas com quem nunca se integrou, que troçavam com a sua
altura desproporcionada para a idade. Como seriam as noites em branco sem poder
respirar com ataques de asma numa camarata fria e escura, ou isolada numa
enfermaria quando as reclamações de que os seus ataques de tosse incomodavam e
as vigilantes insensíveis a acusavam de histerismo, sem um mimo, nem um colo
que a reconfortasse no seu desespero. Como pôde resistir à violência de a terem
atirado, logo após a morte do pai, aos oito anos, para um colégio interno,
austero, exalando hipocrisia e hostilidade por todos os cantos. Como teria
conseguido sobreviver à constante insensibilidade da mãe que a toda hora, nos
raros fins-de-semana que a visitava, a cobria de críticas e a qualificava como
burra e estúpida quando os resultados não correspondiam ao esperado, que lhe
dizia que era fraca e nunca chegaria a lugar nenhum, que só dava preocupações.
Nem mesmo nas justificações da debilidade causada pelas
noites em branco, da solidão e das saudades de casa encontrava uma palavra
de afecto.
Como conseguiu
viver sabendo que não cabia em lugar nenhum. Que ninguém a conhecia ou
entendia. No colégio era apenas um número, o 900 e tal. Em casa, era um peso,
uma preocupação, uma estranha que às vezes manifestava ideias que fugiam ao
instituído e lhe valiam umas bofetadas; cuja aparência física só por si chamava
as atenções, e onde estava apenas de passagem, sem pertencer
verdadeiramente ali.
Vi depois um
dormitório comprido, de paredes brancas, com camas de ferro, brancas também,
austeramente alinhadas, todas iguais, com lençóis brancos e um cobertor, fino,
pardo, onde pairava um silêncio igualmente branco, austero. Vi, numa
delas, um menino tímido, que imagino franzino, encolhido de frio, porque talvez
todas as suas noites fossem frias, e talvez o escuro o enchesse de
medo, num abandono que nem ele próprio compreenderia e lhe
tornava imensa a cama estreita.
Imaginei esse
menino envergando, nos primeiros tempos, uma bata igual à
de todos os outros meninos. Mais tarde, uma outra vestimenta qualquer,
sombria, percorrendo ordenadamente, em silêncio, anos a fio, corredores escuros
de tectos altos, vazios de tudo, numa atmosfera pesada, soturna,
onde se respirava apenas disciplina e ordem, impostas com a mesma austeridade
com que se exigia o esquecimento da individualidade e do "eu" de cada
um. Talvez ali não fosse apenas um número mas também não seria muito mais do
que isso, ou talvez fosse menos ainda. Era certamente apenas um, no meio
de tantos outros, igual a todos, conduzidos como um rebanho com uma única
finalidade: amar algo que nenhuma criança de dez anos pode perceber o que
é. Amar sem se sentir amado e culpando-se disso. Amar sem pedir nada em troca.
Amar e não ter um beijo antes de dormir, o lençol aconchegado, um sorriso ao
acordar. Amar exigindo-se-lhe sacrifícios, uns atrás dos outros, num dia dia-a-dia
sem conforto, sem lhe ser permitido ser criança, ser gente, sentir,
pensar, questionar. Talvez sujeito a castigos violentos, crescendo sozinho,
baralhado com o que lhe acontecia, com o que a natureza desencadeava em si,
culpando-se, muito provavelmente de ter um corpo, sentimentos, anseios, desejos
que não compreenderia certamente, mas que certamente seriam fraquezas suas,
tentações do demónio. Talvez a toda a hora temesse pecar, porque ali
tudo era pecado, excepto a fé, cega e inquestionável.
Ao mesmo tempo
que eu nascia, o menino transpunha a porta de um edifício que imagino
gigantesco, cinzento como o granito, seguindo de mala na mão, para numa
imensidão de vazios, entregue aos cuidados e caprichos de pessoas cuja
única imagem que tenho é a de seres cobertos de negro, obsessivos, cruéis e
hipócritas.
Nove anos mais tarde, enquanto eu jogava à bola
com latas vazias e pedras da calçada, subia às árvores, espatifava botas e
rasgava calças entre tombos e gargalhadas, o menino, agora adolescente, pegava
novamente na mala, agora cheia de mossas, feridas, pesadelos e tantas outras
coisas que não posso sequer imaginar mas que sei que inevitavelmente iria
carregar, como quem carrega chumbo, a vida inteira, e partia em busca da
sobrevivência."
NOTAS EXPLICATIVAS:São 3 pessoas
distintas. Três histórias de vida.
Começa com um
episódio recente (com 1 ano) do Francisco. Passo para o passado, falando da
minha mãe e conto também a história de um outro menino que também cresceu num
internato como a minha mãe. Esse menino é hoje um adulto 10 anos mais velho do
que eu, que um dia me contou a sua história pedindo-me segredo. Por isso não
tem nome.
Três pessoas que passam por episódios de dor, de alguma
humilhação mas cujo intimo se manteve genuíno.

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