Eu sou
assim… Já não me lembro de em quantos” Eu sou assim” é que eu ia. Por isso…
Não, não há “por isso”! Há só “deixar acontecer”. Acontece que eu gosto de me
ver assim. Gosto, gostava, gostarei. Gosto porque me sinto assim: transparente
por dentro e por fora, prolongada em ondulados coloridos que não se sabe onde
começam nem onde acabam. Alguém se lembrou de me condensar numa imagem, mas
está enganado. E está enganado ou enganada porque se trai ao diluir as coisas e
o espaço como se tudo fosse feito em cima de algo muito poroso e instável e que
começa apenas num ponto, de baixo para cima, em espiral. É nessa espiral, em constante
oscilação, que se evidenciam as cores, prolongando-as indefinidamente. É isso
mesmo que eu sou: uma espiral, uma oscilação, desdobradas num colo multicolor,
esbatido na nitidez de um mar de areias brancas. É por tudo isto que eu acho
que quem pintou este meu quadro o deixou incompleto. E ainda bem. Eu gosto de
me ver em degradé e a oscilar por cima da minha perecibilidade. Mal de mim se
assim não fosse! Se o pintor, eu quero que seja um pintor, me desse por
terminada… Se tudo batesse certo como as teclas de um piano… Se tudo tivesse a
nitidez dos dias claros e a soçobrar de azul pelo céu fora…A minha música é
outra. E o meu céu é este, mas repleto de altos e baixos: um céu que oscila e treme
e que se derrete na boca como se fosse feito de gelatina. Eu sou de gelatina!
Framboesa viva como mamilos cor-de-rosa. Não importa que ninguém descubra este
meu jeito de colina e vale, açucarados. Eu gosto de sentir as voltas e reviravoltas
da minha loucura agridoce de omnipresente vulnerabilidade.
Falei em gostava. E tenho razão. É que entre o que sou e o que eu gostava de ser há uma dissonância qualquer. É o meu espírito analítico, cheio de convenções já instaladas na mente. Aquela crítica constante a que me sujeito, decompondo tudo em farrapos, moléculas e átomos e misturando, depois, ciência e arte, poesia com o que há de mais prosaico numa panela de água a ferver. Isto é puro riso! Ridículo e absurdo! Ainda há mais. Há alturas em que decompor ou misturar é mesmo que carregar uma cruz às costas. Porque hei-de eu carregar aquilo que não depende de mim e que me parece tão refratário? Porque hei-de eu decompor ou misturar? Não gosto de me ver assim! Porque eu sou o que gosto! E não um acelerador de partículas! Ou de risos ridículos e absurdos…
Gostarei… Foi a última questão. Que
coisa tão intrincada! Acabei por me dividir no futuro. Ainda há pouco disse que
o gosto é que conta! Haverá alguma
maneira de deslindar este mistério?
Não
vou pensar nisso agora nem, sequer, deixar-me envolver por gestos de misericórdia.
Só queria conseguir estabelecer um feedback entre o gosto, gostava e gostarei.
Nem que tenha que suprimir o que está a mais. Não faz sentido o gostava. É isso! Mas, deixo ficar. A panela de água a ferver e
a poesia e a ciência misturada com a
arte são ciclos de vida, avanços e retrocessos que servem de alicerces ao gosto que me sustém.
Afinal
o “gostarei” é que está a mais!
Será? A ser verdade, onde terá cabimento
aquela doce oscilação a que me votei? Senti-la-ei com uma das mãos apoiada na
nuca e para além do espelho?
Ah,
mas eu sou assim! Eu quero sentir a curvatura dos meus seios e as linhas
curvilíneas que existem em mim e onde amanheço em degradé.
11-01-2013
Isabel
Vieira

Um comentário para o que aqui postaste e que é meu. Não sei nada disto que aqui escrevi. Há alturas em que parece que nada tem a ver comigo. Consigo um distanciamento tal, que parece que estou a ver tudo ao longe e a esfumar-se!
ResponderExcluirbeijinhos
Bel
Isabel, escrever faz-nos sair de nós. É ir ao fundo da alma, é falar com o nosso mais profundo "eu" que só a escrita solta. É por isso que é tão bom saltar para o papel e entrar numa outra dimensão de nós. Quando escrevemos somos muito mais verdadeiros. Aliás, é quando somos realmente verdadeiros. Quando pensamos com os nossos botões, somos muitas vezes, mesmo sem intenção ou propósito, escorregadios, contornamo-nos. É como se olhássemos para nós e nos víssemos através de um espelho embaciado. Depois, quando chega o momento de nos sentarmos e escrevermos não há alternativa senão revelar o que há em nós sem artifícios. Somos transparentes, verdadeiros, ou não será possível escrever. Escrevendo ficção ou não, as palavras somos nós, tudo o que elas podem parecer esconder têm por trás a nossa alma.
ResponderExcluirAdorei o teu texto como aliás sempre acontece e tu sabes. Gosto do teu entra e sai, dos pulinhos, dos contornos e do regresso, dos questionamentos, fundos, de um tom por vezes airoso, outras mais seco, ou mais cru. Beijinhos para ti e para o Sérgio.