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15 janeiro 2013

Eu sou assim… ISABEL VIEIRA



      Eu sou assim… Já não me lembro de em quantos” Eu sou assim” é que eu ia. Por isso… Não, não há “por isso”! Há só “deixar acontecer”. Acontece que eu gosto de me ver assim. Gosto, gostava, gostarei. Gosto porque me sinto assim: transparente por dentro e por fora, prolongada em ondulados coloridos que não se sabe onde começam nem onde acabam. Alguém se lembrou de me condensar numa imagem, mas está enganado. E está enganado ou enganada porque se trai ao diluir as coisas e o espaço como se tudo fosse feito em cima de algo muito poroso e instável e que começa apenas num ponto, de baixo para cima, em espiral. É nessa espiral, em constante oscilação, que se evidenciam as cores, prolongando-as indefinidamente. É isso mesmo que eu sou: uma espiral, uma oscilação, desdobradas num colo multicolor, esbatido na nitidez de um mar de areias brancas. É por tudo isto que eu acho que quem pintou este meu quadro o deixou incompleto. E ainda bem. Eu gosto de me ver em degradé e a oscilar por cima da minha perecibilidade. Mal de mim se assim não fosse! Se o pintor, eu quero que seja um pintor, me desse por terminada… Se tudo batesse certo como as teclas de um piano… Se tudo tivesse a nitidez dos dias claros e a soçobrar de azul pelo céu fora…A minha música é outra. E o meu céu é este, mas repleto de altos e baixos: um céu que oscila e treme e que se derrete na boca como se fosse feito de gelatina. Eu sou de gelatina! Framboesa viva como mamilos cor-de-rosa. Não importa que ninguém descubra este meu jeito de colina e vale, açucarados. Eu gosto de sentir as voltas e reviravoltas da minha loucura agridoce de omnipresente vulnerabilidade.

Falei em gostava. E tenho razão. É que entre o que sou e o que eu gostava de ser há uma dissonância qualquer.  É o meu espírito analítico, cheio de convenções já instaladas na mente. Aquela crítica constante a que me sujeito, decompondo tudo em farrapos, moléculas e átomos e misturando, depois, ciência e arte, poesia com o que há de mais prosaico numa panela de água a ferver. Isto é puro riso! Ridículo e absurdo! Ainda há mais. Há alturas em que decompor ou misturar é mesmo que carregar uma cruz às costas. Porque hei-de eu carregar aquilo que não depende de mim e que me parece tão refratário? Porque hei-de eu decompor ou misturar? Não gosto de me ver assim! Porque eu sou o que gosto! E não um acelerador de partículas! Ou de risos ridículos e absurdos…
            Gostarei… Foi a última questão. Que coisa tão intrincada! Acabei por me dividir no futuro. Ainda há pouco disse que o gosto é que conta! Haverá alguma maneira de deslindar este mistério?
            Não vou pensar nisso agora nem, sequer, deixar-me envolver por gestos de misericórdia. Só queria conseguir estabelecer um feedback entre o gosto, gostava e gostarei. Nem que tenha que suprimir o que está a mais. Não faz sentido o gostava. É isso!  Mas, deixo ficar. A panela de água a ferver e a poesia e  a ciência misturada com a arte são ciclos de vida, avanços e retrocessos que servem de alicerces ao gosto que me sustém.
            Afinal o “gostarei” é que está a mais! Será?  A ser verdade, onde terá cabimento aquela doce oscilação a que me votei? Senti-la-ei com uma das mãos apoiada na nuca e para além do espelho?
            Ah, mas eu sou assim! Eu quero sentir a curvatura dos meus seios e as linhas curvilíneas que existem em mim e onde amanheço em degradé.
            11-01-2013
            Isabel Vieira 





2 comentários:

  1. Um comentário para o que aqui postaste e que é meu. Não sei nada disto que aqui escrevi. Há alturas em que parece que nada tem a ver comigo. Consigo um distanciamento tal, que parece que estou a ver tudo ao longe e a esfumar-se!
    beijinhos
    Bel

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  2. Isabel, escrever faz-nos sair de nós. É ir ao fundo da alma, é falar com o nosso mais profundo "eu" que só a escrita solta. É por isso que é tão bom saltar para o papel e entrar numa outra dimensão de nós. Quando escrevemos somos muito mais verdadeiros. Aliás, é quando somos realmente verdadeiros. Quando pensamos com os nossos botões, somos muitas vezes, mesmo sem intenção ou propósito, escorregadios, contornamo-nos. É como se olhássemos para nós e nos víssemos através de um espelho embaciado. Depois, quando chega o momento de nos sentarmos e escrevermos não há alternativa senão revelar o que há em nós sem artifícios. Somos transparentes, verdadeiros, ou não será possível escrever. Escrevendo ficção ou não, as palavras somos nós, tudo o que elas podem parecer esconder têm por trás a nossa alma.
    Adorei o teu texto como aliás sempre acontece e tu sabes. Gosto do teu entra e sai, dos pulinhos, dos contornos e do regresso, dos questionamentos, fundos, de um tom por vezes airoso, outras mais seco, ou mais cru. Beijinhos para ti e para o Sérgio.

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