Reféns do bolsonarismo
CONRADO HÜBNER MENDES - O Estado de S.Paulo (*)
O Brasil tem assistido a surtos agudos de
primitivismo político. O fenômeno não é de direita nem de esquerda, não é de
oposição nem de situação, não é conservador nem progressista. Merece outro
adjetivo porque não aceita, por princípio, a política democrática e as regras do
jogo constitucional. Esforça-se em corroê-las o tanto quanto pode. Não está
disposto a discutir ideias e propostas à luz de fatos e evidências, mas a
desqualificar sumariamente a integridade do seu adversário (e, assim, escapar do
ônus de discutir propostas e fatos). Cheio de convicções, é surdo a outros
pontos de vista e alérgico ao debate. Não argumenta, agride. Dúvidas seriam
sinais de fraqueza, e o primitivo quer ser tudo menos um fraco. Suas incertezas
ficam enrustidas no fundo da alma.
Há muitos exemplos desse surto. Aos interessados num
curso relâmpago sobre essa patologia, serve qualquer entrevista de um folclórico
deputado do PP que há pouco mobilizou o seu partido para pleitear, sem sucesso,
a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados
(ver YouTube). Ao ser perguntado sobre os seus projetos para o cargo, dispara:
"A minoria tem de se calar e se curvar à maioria!". E continua: "Não podemos
estimular crianças a serem homossexuais". Para ele, "não somos nós que temos de
respeitar homossexual, eles é que têm de me respeitar".
"Vagabundos", pondera ainda, deveriam "pagar por seus
pecados". Por isso, os presídios brasileiros seriam "uma maravilha" e o Complexo
Penitenciário de Pedrinhas, onde alguns presos foram decapitados semanas atrás,
"a única coisa boa do Maranhão".
Dessa amostra se pode deduzir o que pensa o deputado
sobre tantos outros temas. Ele sabe para quem está falando e por qual breviário
deve rezar para se eleger. Suas frases de efeito imoral são combustível para
toda sorte de recalque homofóbico, sexista, racista, elitista, policialesco,
enfim, para todo o arsenal de recursos opressores estocados na cultura
brasileira. A filosofia da discriminação dá voto. Invocada com raiva e fé, ainda
elege e reelege.
O parlamentar do PP é a expressão mais caricata, se
não repugnante, do primitivismo. Fosse apenas um lembrete pedagógico de um país
que um dia existiu, ou representasse só um reduto de filhos bastardos da
ditadura, não causaria maior dor de cabeça. Mas quando notamos que ele é somente
a versão mais antipática de um Brasil que ainda nos espreita da esquina, ou de
uma mentalidade que continua a se manifestar nos jornais, na família e no
trabalho, é sinal de que o confronto não pode ser evitado. Há muito em risco
para ficar em silêncio.
Onde erra o bolsonarismo? Essa não é uma pergunta
retórica. A resposta, afinal, nem sempre está na ponta da língua daqueles que
rejeitam, por instinto ou convicção, essa visão de mundo. Construir uma resposta
robusta, por todos os ângulos possíveis, é um esforço indispensável para deixar
claro o que está em jogo.
Incomodam ao bolsonarismo os padrões de decência
política, os direitos fundamentais e os compromissos de mudança social pactuados
pela Constituição de 1988. Esse pacto constitucional, entretanto, é um ponto de
partida inegociável e não está aberto a reconsideração. Se pensa que nem todos
merecem direitos, não entendeu bem o que são direitos. Fala em direitos, mas
pensa em privilégios. Se quer ser um servo da maioria, não aprendeu bem o que é
democracia, mas definiu perfeitamente a tirania. Se acha que a parada gay deve
ser respondida com a marcha dos heterossexuais, não entendeu nada mesmo.
Que o seu repertório de ideias fixas constitui uma
brutalidade moral e uma aberração jurídica, isso não é mais novidade. Antes
disso, porém, trata-se de um monumento de desonestidade intelectual. Ignora as
abundantes provas sobre a motivação homofóbica de centenas de crimes de ódio
anualmente praticados por todo Brasil. Ignora a relação causal, já demonstrada
por tantos pesquisadores nacionais e estrangeiros, entre o encarceramento em
massa e o agravamento da violência. Prisões brasileiras há muito não cumprem
suas funções publicamente anunciadas - prevenção, dissuasão, ressocialização.
Poucos se dão conta, contudo, de que prisões cumprem perigosas funções
extraoficiais, e elas invariavelmente agradam ao primitivo: o incentivo à
demagogia, a repressão da pobreza, o endurecimento da violência estatal. Isso já
é saber convencional nas ciências sociais, mas a política mostra-se impermeável
a essas velhas constatações.
Um dos desafios para a sobrevivência da democracia é
alijar as ideias que atacam a sua própria condição de existência. E como
alijá-las sem suprimir a liberdade de expressão? Há pelo menos dois caminhos
complementares.
Primeiro, pela construção e manutenção de uma esfera
pública vigilante que defenda e rotinize práticas democráticas, algo que depende
da educação política praticada por escolas, jornais, instituições culturais,
organizações não governamentais (ONGs), etc. Práticas que seriam facilitadas,
por exemplo, pela multiplicação de espaços públicos nas cidades, onde se possa
conviver com a diferença e apreciar a pluralidade brasileira.
Segundo, por meio de líderes que não se acuem diante
da baixa política, que tenham coragem de arriscar seus cargos em defesa de
certos princípios e tenham grandeza para fazer alianças com aqueles que, mesmo
adversários, compartilham esses princípios. Quando o medo da derrota eleitoral
sequestra essas lideranças, que em silêncio desidratam seus projetos de
implementação de direitos e promoção da igualdade, o alarme passa a tocar.
(*) PROFESSOR DE DIREITO
CONSTITUCIONAL DA FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE
DE SÃO PAULO, É DOUTOR EM
DIREITO PELA UNIVERSIDADE DE EDIMBURGO (ESCÓCIA) E DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA PELA USP
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