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27 junho 2007
23 junho 2007
A gente vai virando ROBOCOP na velhice...
CEPAP: é este o nome do aparelho que miraculosamente suprime a apneia do sono, inimiga silenciosa e covarde da saúde de nossas coronárias, e que impede a oxigenação de nosso organismo. Estou usando-o há uma semana, e os efeitos são admiráveis.Durante o dia uso ouvidos digitais (ninguém diz que estamos usando aparelho de surdez) ; e quando chega a noite, é hora de retirá-lo (já que não se ouvem os sonhos) vem a hora de dormir e com ela todo um ritual. (Pra não falar dos óculos, para perto, longe e média distancias, além dos pequeninos só para leitura. Dentadura está inteira, ainda não coloquei substitutos de acrílico ou outro material. Também, calma, acabo de completar só 70...) Lavar o rosto com um sabonete especial. Aplicar um spray nas narinas. Colocar o segurador de queixo, para manter a boca fechada. A seguir a colocação da máscara, com tiras de velcro, sendo que a máscara em sí é até delicada, toda em silicone, e o resultado final é de um piloto de F1 antes de colocar o capacete...Estou pensando seriamente em mandar fazer uns pijamas tipo macacão de F1, vão apenas faltar as inumeráveis propagandas distribuidas...mas afinal quem vai pagar pra me ver dormir?...
22 junho 2007
Roupagem moral.
OAB-PR repudia juiz que proibiu trabalhador de chinelo em audiênciaA seccional do Paraná da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) repudiou a atitude do juiz da 3ª Vara do Trabalho de Cascavel, Bento Luiz de Azambuja Moreira, que adiou uma audiência porque o trabalhador Joanir Pereira compareceu ao fórum calçado de chinelo de dedos. O juiz alegou que “o calçado era incompatível com a dignidade do Poder Judiciário”. “Num país tropical como o Brasil, uma decisão como essa no âmbito da Justiça é absurda. Um fato como esse deve entrar para os registros das aberrações jurídicas”, disse o presidente da OAB-PR, Alberto de Paula Machado.Para o advogado Marcelo Picoli, que alegou tentar argumentar com o juiz para não adiar a audiência, a atitude de Joanir impediu o acesso do cliente à Justiça. A audiência foi remarcada para 14 de agosto.
Joanir estava errado: para mostrar respeito pelas instituições, dignidade, sentido de brasilidade, ele deveria ter calçado um par de finos sapatos de cromo alemão, colocar gravata e usar terno, se possível com algum emblema na lapela. Para ficar parecido com a nata de senadores e deputados de Brasília, que nos motivam, com suas ações e atitudes, a crer num Brasil grandioso e de futuro. A roupa é tudo. Parabéns, juiz Bento Luiz. Sua categoria a cada dia consegue mais e mais admiradores por todo este país.
21 junho 2007
Vôo Geral (S Rebouças)
Prezados Clientes:Como estão observando, este consultório está sendo informatizado. As nossas atendentes de agora em diante não mais se ocuparão em preencher fichas, mapas e guias de consultas, e passarão a ser chamadas de 'coletoras de dados da relação médico-paciente' (CDRMP). Uma das vantagens desta implantação, aliás 20 anos atrasada aqui nestes nossos consultórios, diga-se a bem da verdade, é que anualmente as senhoras/ pacientes poderão mandar alterar na tela suas idades, para mais, para menos ou com uma diferença de dois pontos percentuais, como diria a Fátima Bernardes. Recomendamos a todos um pouco de paciência enquanto as nossas CDRMP dedilham seu teclado, pois a cada novo paciente existem exatos 86 campos a serem preenchidos...Façam de conta que estão na fila de embarque no aeroporto, fazendo seu check-in, e os controladores de vôo (os médicos) estarão consultando, lá dentro, seus manuais... pois estão todos voando...e um viva à modernidade!
14 junho 2007
Coceiras coçam...
Isto sucedeu há mais de10 anos atrás e me parece que foi ontem...nosso grupo de consultórios de três salas era o mesmo, mas o mobiliário e a disposição decorativa eram diferentes; usavamos ainda móveis de segunda mão, de ferro e vidro, para atendimento aos clientes, adquiridos de um colega que encerrava carreira em Nova Iguaçú. Esta foi a sorte, minha e do paciente, um português chamado de um modo original de .... Manoel, que uma bela tarde atendi. Entrou acanhado, com a esposa a tiracolo, uma mulher grande, que se sentou na ponta da cadeira, as pernas juntas, a bolsa pousada nos joelhos, o olhar fixado em mim, um cenho cerrado que eu não entendia o porquê. Perguntei ao cliente o que o trazia ali, e ele, mal à vontade, engasgado, engrolou palavras soltas, ininteligíveis para mim, mas tinha algo a ver com evacuação, coceiras 'lá atrás' e presumi logo que o melhor mesmo seria fazer-lhe um exame de toque. Passamos à sala de exames. Quando introduzi o dedo enluvado indicador esquerdo, a princípio nada...até que a ponta do dedo encontrou algo fino, sólido e circular e logo pensei numa destas tampas de talco ou desodorante. Aquele não era o momento para fazer inquirições, afinal não era um lugar comum para se aplicar desodorante, embora seja versdade que não seja dos locais de nossa anatomia dos mais aquinhoados com bons olores...e tanto mais que, graças a Deus, o 'dragão' se deixara ficar em seu lugar, na sala anterior. Com a mão direita livre, abri a porta de ferro e vidro onde havia o material necessário, uma caixa com ferros cirúrgicos. Peguei uma pinça que leva o simpático nome de Kocher, uma pinça firme, com graus de cerramento, usada normalmente para prender vasos sanguíneos em procedimentos cirúrgicos, e com o auxílio dos dedos da mão esquerda, como guia, fui introduzindo delicadamente a pinça com a mão direita, assim mesmo sem luva, até encontrar o objeto. Com o máximo cuidado, introduzi um dos ramos da pinça entre a mucosa retal e o objeto, e quando me certifiquei de que estava tudo ok fechei a pinça firmemente. Apenas, ao exercer suave tração, a coisa não vinha. Instintivamente, comecei a fazer movimentos suaves de báscula, e também rotatórios, o que permitiu que houvesse uma passagem de ar entre as duas superfícies...e nasceu um belo exemplar de tampa de desodorante que foi prontamente envolvido em gaze, para não se resfriar...
A sorte do nosso amigo é que a introdução deixou a tampa com a parte oca para baixo, então foi possível a sua preensão.
A mulher devia desconfiar, mas eu consegui engrolar como motivo do quadro algo como fezes muito endurecidas, prescrevi um óleo mineral e uma pomada hemorroidária, ninguém me fez nenhuma pergunta e eles foram embora e nunca mais vi seu Manoel na minha frente. Há coisas que os livros de medicina não ensinam...
Tudo colaborou para um feliz desenlace: eu ser canhoto, o armário ser do tipo cristaleira e estar ao meu alcance, ter o material necessário, e o dragão não acompanhar o marido na "sala de parto"...ia ser uma cena daquelas!
Tudo colaborou para um feliz desenlace: eu ser canhoto, o armário ser do tipo cristaleira e estar ao meu alcance, ter o material necessário, e o dragão não acompanhar o marido na "sala de parto"...ia ser uma cena daquelas!
13 junho 2007
Morbidez
De minha caixa de correio no Outlook recebi, recentemente, de duas pessoas diversas, em ocasiões diversas, o mesmo e-mail. Trata-se de o que pretende ser uma advertência, um apelo talvez a uma maior segurança no transito, mas redunda numa coisa chocante, desnecessária, gratuita, agressiva à grande maioria das pessoas que o recebem. Abre com um caminhão enorme chocado de frente com um diminuto Mercedes. Mostra cenas do acidente e vai para um plástico preto, onde jaz a metade de um homem, cabeça, tronco e braços,e o torax acaba abruptamente e continua com um resto de coluna vertebral, parecendo uma cauda. Mercê da minha profissão de médico, tive oportunidade de ver cenas dantescas; mas não acho que as pessoas que têm suas vidinhas comuns, que desmaiam a um corte no dedo, possa estar em condições de receber este tipo de mensagem. São moscas varejeiras dos sentidos, insensíveis e farejadoras de desgraças, pena que não recordo quem eram estas duas pessoas. Pois as erradicaria da minha lista habitual como um ato de revolta e protesto. Tudo tem um limite.A propósito, este quadro é de Cândido Portinari
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