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11 dezembro 2012

A TODOS AQUELES QUE NOS DEIXARAM


 A TODOS AQUELES QUE NOS DEIXARAM


Este banco é pequeno, bem sei, para abrigar as lembranças de quantos já não mais ali podem sentar conosco, na brisa do encantamento, na contemplação calada do belo, no comentário de tantas coisas acontecidas em comum, e que hoje sequer perduram.
A evocação enternecida de uma lembrança ou um momento compartilhado, a vista embaçada pela saudade, a lágrima indiscreta e exibicionista, até mesmo quando há apenas um espectador, e este nos olha do fundo de nosso espelho,
(e chora, conosco).
Se houveram brigas, desentendimentos e outros frutos de nossas imperfeições, elas nunca se sentaram neste banco, sob esta árvore, nunca experimentaram a paz que sucede ao desfecho do desastre anunciado ou não, no recobrar-se cíclico da cadência da Vida.
Quantas vezes temos falhado em simplesmente contentarmo-nos em jogar ao colo de amigos arrasados por perdas, que são para eles como que um arrancamento a frio de uma sua parte do corpo, palavras cristãs vazias de conforto.
Quantas vezes reagimos com palavras formais, às quais  o ser embrutecido pela dor nem sequer responde...
Mas, se pelo menos uma vez, procuramos este banco, e lembramos de uma pessoa querida que nos deixou, este gesto redime nossas falhas, abranda nossa culpa.
Porquê ainda consigo acreditar em Deus, mesmo que aconteçam tantas e tantas desgraças, mesmo que ignorante de Seus desígnios.

2 comentários:

  1. "Vão pelo mundo os amores e não se imagina quanto sofre quem os vê partir.
    Como sentir o significado das palavras doridas de quem fica? Como acompanhar a sua dilaceração? Como entender a alma que se lhes verga? Como não aceitar que procurem outras paixões? Como não prever a ligeira sombra de evasão em que sobrevivem?
    Partem sem olhar para trás, os amores, mas continuam a ser quem eram no curso de lugares longínquos, ainda que, por vezes, pareçam perdidos, pareçam uma réstia de nada na lembrança das noites que demoram, essas megeras de solidão com mar diluído na grandeza escura que nem a pesada natureza dos atos explica.
    Não há meias palavras para dizer solidão tamanha. Só palavras inteiras, palavras sem defesa, palavras nuas como as facas que não avisam quando se preparam para fazer em tiras a morte."

    EBrum

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  2. Sentada no banco das ausências, dos que as sentem
    Espero aquela bola que o miúdo de calções cinzentos arremessou ao acaso.
    Ficou retida na copa das árvores onde os pássaros talvez a debiquem amedrontados.

    Nada fiz para ajudar o garoto, coisa rara em mim que parece que nasci predestinada
    Para o confronto com as necessidades dos outros.
    Deixei-me ficar amodorrada ao bater cadenciado dos meus sapatos no chão gasto.

    Pouco depois, chegou o garoto com os calções rasgados e os olhos a brilhar
    Olhou para mim como se não fosse nada e continuou a pontapear a bola à minha frente.
    Com os calções rasgados e a pele a sangrar.
    Sem desviar os olhos dele e da bola, continuei o meu batuque de pés no mesmo chão.

    Éramos iguaizinhos. O garoto e eu. A bola era batida e a terra, debaixo dos meus pés, também.
    Só as respirações é que estavam trocadas. Ele respirava para fora e eu respirava para dentro
    Como se dentro de mim alguém sustivesse o meu ar e o transformasse em bola a marcar golos na própria baliza.

    16-12-2012
    Isabel Vieira

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