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| NÃO EXAGEREMOS, ISTO NÃO É MICTÓRIO DE BAR-RESTAURANTE... |
BARROS, UM VELHO
Movimentou-se
desconfortavelmente na cadeira, ao ouvir aquela pergunta, tantas vezes
formulada.
V. acha, não, espera
aí, me fala a verdade amigão, v. acha que está ficando velho?... Quer dizer, um
velho mesmo?...No duro?...
Não, pensou
ele, não acho, só tenho certeza, contemplando as próprias mãos pousadas na mesa
do bar. Aquelas mãos, outrora bonitas, fortes e quadradas, “as mais bonitas
mãos de homem que ela já vira”, dissera uma vez Lili Abelha, uma sofrida
lésbica sua velha conhecida, há muitos anos atrás. Que fim teria levado aquela
figuraça?...
Agora, os
dedos torciam-se em torno do seu eixo, os nós engrossados, a mesma artrite
deformante que sua avó tivera e da qual tanto sofrera.
Mas seu
interlocutor insistiu. Era tão velho quanto ele, e tossia regularmente, uma
tosse seca, irritante, embora não deixasse de pitar seu cigarrinho.
Mais ou
menos, respondeu, só para dizer alguma coisa.
Estava mais
disposto a meditar que conversar. Há algum tempo começara a se dar conta das
impossibilidades que vinham ferir seu ego, a dificuldade cada vez maior em se
levantar de uma poltrona, de andar mais depressa, de raciocinar mais rápido, de
achar graça em bobagens, de se manifestar mais pacientemente sobre algo que o
contrariasse. Estava cada vez mais propenso a ficar em casa, já não gostava
tanto de sair, visitar os poucos amigos...Era tudo tão mais difícil, tão dura e
exasperantemente mais difícil! Sentia-se uma múmia em processo final de
embalsamamento.
A coluna
lombar, dantes ignorada, agora gritava desaforada a sua presença, e às vezes só
se calava à força de relaxantes musculares.
Os olhos o
enganavam, traziam-lhe imagens que ele sabia não estar ali, a misturar-se com
lágrimas inoportunas, seja porque os olhos eram agora emoldurados por pálpebras
eternamente inflamadas, seja por um sentimento pungente de saudade, que não
ousava confessar.
Um lenço, um
par de óculos, seus comprimidos sublinguais para a angina, a carteirinha do
plano de saúde (caro, muito caro, mas que ele não podia deixar de pagar, senão
nunca mais conseguiria ingressar e pagar um outro), eram seus companheiros
obrigatórios, junto com o vale transporte e o parco dinheirinho de bolso, se se
arriscava a ir ao bar do Malaquias, sua única fonte de entretenimento, como
agora.
Voltou a
prestar atenção no amigo.
...e o
Aristides, veja só, o Aristides! Agora está muito feliz, transando com a sua
eterna e conformada noivinha quase todos os dias... Adaptou-se, agora vira pra
cá, vira pra lá, não tem mais o vamos fazer uma força e se der....
Não estava
entendendo aquilo, o Aristides, diabético grave, há muito não sabia o que era
uma relação sexual...
Estás falando
do nosso Aristides? Adaptou-se? Vira pra cá, vira pra lá...O que diabos você
está dizendo?
Claro, homem,
de quem mais? Está feliz da vida com a prótese que lhe colocaram!
Prótese do
quadril?...
Acorda,
homem, alguém lá transa com o quadril, filho de Deus! Estás esquecendo de tudo?
Prótese pe-ni-a-na, caramba.
Deus do Céu,
mais um louco à solta neste mundo...
Barros
lembrou-se de ler numa revista um artigo sobre isto, mas limitara-se então a
abanar a cabeça, descrente. Era só o que me faltava!...
Contemplou o
copo de cerveja, já morno, à sua frente.
Hoje a
Medicina vai muito adiantada, há progressos maravilhosos todos os dias, anunciados
nas páginas dos jornais, na TV, a tal de engenharia genética, ADN, sei lá mais
o que, os caras intervém nos cromossomos dos fetos, uma loucura...
Sentiu uma dorzinha
safada no braço esquerdo, mas fingiu que não era com ele. Pediu outra cerveja.
Na parede, ao
lado da mesa, um espelho cheio de dizeres em alvaiade, a letra floreada: eram
os pratos do dia; entre o tutu de feijão e a dobradinha, conseguiu ver seu
rosto. O que viu deixou-o triste, ainda mais triste. Era uma fisionomia
cansada, abatida, desencantada. Não era uma fisionomia em paz.
Pôs os
óculos, para se ver melhor (ou pior, pensou) e depois de um esforço de
lembrança e uma enxugadela naquelas lágrimas irritantes, conseguiu ver no fundo
do espelho a face que tivera aos dezoito anos. Deus, que diferença...
Quem
é que em sã consciência poderia dizer que a velhice era a coroação de uma
existência?...
“Nossas roupas comuns dependuradas
na corda qual bandeiras agitadas
pareciam um estranho festival...”
Assim como a
vida nas favelas, carentes de tudo, assim como na velhice, carente de tudo e de
todos...
A velhice é
uma tristeza, eu odeio a velhice, eu, Barros, não a aceito de jeito nenhum!
Levou o copo aos lábios, merda, porque toda a vez tinha de pingar na camisa?...
Bota o
babador, Barros, divertia-se o amigo, e logo danava a tossir sem parar.
Não vou bater
nas tuas costas, senão V. é capaz de desmontar, e eu nunca fui bom em
quebra-cabeças...No Natal me lembra de te dar uma bolsa de lona daquelas
grandes, de sacoleiro do Paraguai, para levares um lençol...Porquê este teu
lenço é brincadeira pra tanto catarro..
Era sempre
assim, desde que se conheceram, há mais de trinta anos, sempre achando um jeito
de se gozar mutuamente. Examinou o paletó amarfanhado do amigo _ (ele não
admitia sair de casa sem aquilo,) e notou uma ponta branca saindo da parte de
dentro, à altura do peito.
Ei, mas o que
é isso, temos aqui um envelope? O endereço de casa pro caso de se apagarem
alguns poucos neurônios pombos-correio que ainda acaso tenhas?...
O amigo
alisou distraidamente o envelope já meio amarrotado, como se ali guardasse algo
muito importante.
Isto?... É o
meu testamento, Barros, o meu testamento...
Mas que
conversa é essa, V. anda por aí com um testamento nas mãos? Que raio de
companhia V. é? Parece mais um papa-defuntos... Sai pra lá! Bateu três vezes na
madeira. Além do mais, V. nem tem herdeiros e muito menos o que
deixar...Testamento! Está gagá, gagá mesmo...Espetou o dedo no ar, ajeitou-se
na cadeira e fulminou o amigo:
Em vez de
pensar em besteira, V. devia andar é com a receita do Dr. Anselmo debaixo do
braço...Já estamos há horas neste boteco, e não vi V. tomar nenhum remédio.
Ora! Remédios
e médicos! Que o diabo os carregue a todos!
Ah! Sim,
claro, mas na hora do sufoco, lá na sua cama, V. fica bem mansinho e engole as
poções como se ouvisse música celestial...
Barros,
Barros! Vê se não me aporrinha mais, homem! Eu não gosto de tomar remédio,
passei grande parte da minha vida sem saber o que era uma injeção, uma febre,
uma dor de cabeça...
Ah! Sim, guardou
na poupança para a velhice...(risos), né?...
A dor no
braço voltara, uma agulhadinha fina, insidiosa, e Barros disfarçadamente abriu
sua caixinha e pescou um comprimido minúsculo. Queria distrair a atenção do
amigo, para não ter de receber de volta a gozação que levaria ao colocar na
boca o remédio, mas o infeliz, debruçado sobre a mesa, fitava-o intensamente
com olhos abatidos de cão perdido:
Velho Barros
de guerra, que não vai a médicos nem toma remédios...qual o seu segredo? Soro
de macaco?... Veterano da clínica da Dra. Aislam?...e cacarejava, mostrando os
poucos dentes que sobraram de tanta ida a dentistas de hospitais públicos, só
para sofrer, indefeso, a chamada arrancoterapia.
Tentou
distrair a atenção do amigo, tinha de tomar o tal comprimido, a dorzinha já
começava a aumentar. Antes só aparecia quando se movimentava apressadamente,
que ele não sabia se arrastar defensivamente pelas calçadas, como um velho, ele
que não aceitava a velhice, mas agora a dor aparecia até quando estava apenas
sentado, como ali.
Logo achou a desculpa
que precisava:
Espera aí,
toma este teu licor de chope que agora eu vou ao mictório...
Outra vez?
Mas V. foi há vinte minutos!...
Ora não
chateia, V. agora é fiscal dos meus rins?
Ta bom, ta
bom, aliás é uma boa idéia...Eu também vou esvaziar o reservatório, tirar água
do joelho, como diz a patuléia...Ah!Ah!Ah!..
Dentro do
banheiro, só acessado espremendo-se o corpo por um corredor lotado de
engradados empilhados de cerveja, infecto como quase sempre, o chão imundo e mijado,
um espelho imundo e quebrado em cima da pia que já fora branca um dia:
Mas V. não
queria urinar? Porque agora quem quer sou eu, pombas! Vai ficar aí segurando o falecido
até o bar fechar?
Barros
desistiu de simular, recuou, pôs o
maldito comprimido na boca, mas o amigo suspirava, fazia trejeitos,
balançava-se pra frente e pra traz, de olhos fechados, como em transe, e nada
de urinar.
Ué, V. não
estava me apressando? E então? Vai baixar o santo, velho?
Espera...arf...está
vindo, está vindo...aiiiiiiiiihhhhhhhh!............
Cruzes, que
vitória, hein? a coisa está assim tão ruim?...Ajudou o amigo a sair do banheiro
e encontrar o caminho da mesa.
De volta à
trincheira, Barros perguntou ao amigo:
V. não foi ao
médico desses troços, pra ver isto? Não deve ser a tal de próstata?..
Olha, eu fui
há alguns anos atrás, não queiras passar por aquilo. O urologista, palavra de
honra, tinha um dedo que mais parecia uma caneta Montblanc das graúdas, me
escarafunchou lá dentro, me senti um merda, dá pra entender?
E aquela
posição humilhante, ai meu Deus do céu!...Mas disse que eu tinha um pequeno
aumento, nada preocupante, que voltasse dentro de um ano...Não me disse pra
tomar nenhum remédio, graças a Deus.
Aí V. ficou
frustrado, hein?, Só um ano depois! Teu ano depois tem quantos dias?
Alguns anos atrás...Era a vez do Barros cacarejar.
É, seu
gozador, mas nunca mais eu fui a ele ou outro urologista qualquer!
Nunca mais, e
então não achas que agora bem que estás precisando?
Não, eu vou
levando, se for pra ir ao urologista, só se for pra botar aquela engenhoca do
Aristides...
E pra que V.
quer botar como é o nome? prótese? Um velho feio como V., só ia assustar as
moças, iam pensar que era algum unicórnio fugido de um filme de terror! Barros
retorcia-se de rir, e o amigo ficava roxo de raiva, sem saber como replicar.
Tomou um
outro gole, parecia que estava saboreando um licor, bem parcimoniosamente. V.
precisa se cuidar, amigo velho! a vida já é essa chatura pra nós de idade, com
sofrimento de urina é muito pior, ora bolas! De urina ou qualquer outra coisa,
aliás...Tanta estória escabrosa que a gente ouve por aí...
É verdade, é
verdade, mas eu tenho tanto medo de sofrer...Porquê eu já passei por poucas e
boas, amigo...
Barros
comoveu-se. Aqueles dois velhos, sem família e sem esperanças, aguardando o
que?, Um pequeno aumento nas magras aposentadorias, dado, às vezes, com
rosnados de revolta e impaciência por parte daqueles governantes, homens moços
ou quase velhos que detinham o poder, a maioria com seu presente e futuro garantidos
por truques e artimanhas, coisas que eles dois não entendiam, como a tal de
aposentadoria especial após oito anos de mandato dos políticos, por exemplo.
Aposentadoria
especial por insalubridade, por acidente provocando incapacidade para o
trabalho, tudo bem; aquilo eles entendiam, inclusive haviam participado da
segunda guerra mundial, tinham sido pracinhas na Itália, mas depois, felizmente
ilesos, voltaram a trabalhar em suas profissões de origem, até completar os
prazos de lei para aposentadoria. E agora? Aposentadorias mixurucas, congeladas
com o restante dos salários do funcionalismo, total falta de sensibilidade dos
governantes deste pais, que detestavam,
ignoravam, desprezavam os velhos...Quanta falta de respeito, quanta
desconsideração nas filas quilométricas, nos postos de atendimento médico, nos
guichês dos bancos, nas calçadas sem acessos para deficientes físicos, tratados
como bichos, colocados pra esperar a morte em antros imundos e abandonados,
disfarçadamente intitulados de Centros Geriátricos, onde eram internados mais
para morrer de fome e a mingua de remédios, apenas antros de eutanásia de
velhos, moeda fácil para o enriquecimento de escrotos gordos, parasitas, que só
visavam enriquecer às custas do INSS. E dizer que muitos deles ostentavam até
diploma de médico!...
Além das
histórias veiculadas pelos jornais, revistas, rádio e televisão, Barros sabia
de um sem numero de casos chocantes, uns por ouvir dizer, mas a maioria eram
casos em que os infelizes personagens centrais eram amigos, parentes e
contemporâneos seus. Ele era uma testemunha de seu tempo, e sofria com isto, e
com a impunidade que campeava. E ninguém ligava, parecia que a sociedade estava
anestesiada...desinteressada, era cada um por si...
Que raio de
sociedade esta, que consumia avidamente o noticiário, rosnava enfurecida ou compungida, e no dia seguinte
encontrava outros assuntos, outros dramas com que se distrair, e se esquecer
completamente dos do dia anterior? Então tudo de ruim que acontecia era
entretenimento, apenas? Alimento para as televisões, espaço pra vender
jornal?...Só pra engordar a mídia?
Que políticos
estes que nós temos, a cuidar sempre do seu próprio interesse em primeiro
lugar, com tanta negociata e da forma mais vergonhosa e sem limites de decência
ou pudor? Mateus, primeiro os teus?...
Que código penal o
nosso, que instrumentos estes usados na repressão e prevenção dos crimes, todos
incrivelmente benévolos, cuidando preferencialmente do bem estar dos marginais,
em detrimento das pessoas de bem?
Que direitos
humanos eram aqueles, voltados para a pseudo-recuperação de criminosos,
criminosos de todos os quilates, de todos os graus de periculosidade, de todas
as idades, ignorando os traumas infligidos às vitimas (quando tinham sorte de
sair com vida), ou senão o que dizer das suas famílias, desamparadas e
desesperadas?...
O que era aquela tal
lei que rezava que os criminosos primários deviam gozar de liberdade por serem estreantes na
modalidade, e deveriam responder ao seu processo criminal fora das grades?
Fosse qual fosse o que fizessem, o grau de monstruosidade do ato praticado?..
Quer dizer
que o primeiro assassinato equivalia ao meu primeiro sutiã? Será que a
vitima concordava com esta deferência de tratamento para com os seus algozes?
Ou a família, em busca inútil de paz (que sabe nunca mais terá), lembrando
eterna, sofrida e compulsivamente da perda?
Barros achou
melhor parar de pensar naquilo, a nada o levaria, senão a um ataque cardíaco,
ou um derrame, na melhor das hipóteses. Olhou para aquele velho à sua frente,
quase ou mais que um irmão, tão frágil e desamparado, assoando estrondosamente
o nariz intumescido e tentando disfarçar as lágrimas que teimavam ainda em
brotar.
Olha, amigão,
as coisas ainda vão melhorar nesta terra...Vamos ter um tantinho de fé, um
tantinho de paciência, que a gente chega lá, caramba!
Agora que os
homens seguraram a danada da inflação, que comia nossas pensões, nosso
dinheirinho já está durando um pouco mais, não é mesmo?
É verdade, Barros, e
V. sabe o que eu li no jornal de hoje, o governo vai dar uma dura nestes planos
de saúde, acabar com um monte de bandalheiras que eles vêm fazendo com os
associados, como a tal de revisão dos preços só porque entramos na faixa da
velhice, que pouca vergonha! Justo quando precisamos de mais apoio, gastamos
mais com remédios, eles nos jogam no buraco...
O velho estava
radiante como se aquilo fossem favas contadas, até parecia que era um grande
freqüentador de consultórios e ambulatórios, o cretino...
Barros e o
amigo trocavam apertos de mão, sorrisos de felicidade.
Em quarto
escuro fósforo aceso é luminária...
Manuel, o
garçom habitual dos dois, olhou aquilo e
pensou com os seus dedos dos pés doloridos:
-Velho é uma
coisa linda! Parece criança, emburra, zanga e no momento seguinte está doce,
doce...abanou a cabeça, enternecido.
Acordou para
a realidade com o brado do gerente:
-“Manuel,
mais três chopes pra mesa seis...e duas poções de batatas!...no capricho!”

Delicioso....sentido...comovente...real, tão real que dói.
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