Viu-se no lugar de Sil
e viu o gaiato segurando na sua mão enquanto o ouvia muito ao longe. Ficou sem
fôlego, sem pinga de sangue. Nunca tinha sentido a morte daquela forma. Nunca
tinha imaginado um cenário assim, nem lido nada que lhe causasse uma sensação daquelas.
Não se lembrava de
a morte representar para si uma preocupação; a sua morte, porque a dos outros
sempre lhe causara um profundo transtorno. Não sabia como lidar com ela. Mas a sua
não, não a preocupava nada. Assustava-a a morte lenta, sofrida, aquele
padecimento, a degradação, a dor física, o arrastar dos dias de sofrimento, mas
a morte em si não. Não se recordava de a ter temido.
A morte começara a
meter-lhe medo quando o filho nasceu. Não fora de imediato, antes um sentimento
que ia crescendo à medida que crescia o seu instinto maternal, à medida que ia
tendo consciência de que ele precisava dela. O instinto maternal e o medo da
morte foram-se apoderando de si gradualmente e em conjunto, de mãos dadas.
Às vezes, quando ouvia
as outras mães falarem do nascimento das suas crias, pensava que talvez não fosse
uma pessoa normal. Não sentira nada daquilo. O seu primeiro pensamento quando viu
o filho foi que era feio e cabeludo. Julgava ter inclusivamente ficado um pouco
decepcionada. Não era nada uma coisa daquelas que estava à espera que saísse de
dentro de si. Depois, olhava para ele e pensava que raio iria ela fazer com aquilo?
Não sabia como se cuidava de um ser tão pequenino.
Os dias foram
passando e ela sabia que tinha que cuidar dele porque era tão indefeso, tão
desprotegido, dependia de si. Mas não sabia ao certo se os sentimentos que lhe
inspirava diferiam muito do que sentira outras vezes quando arrebanhava na rua os
cães abandonados e os levava para casa, enlouquecendo a sua mãe. Comovia-se com
seu abandono, doía-lhe pensar que tinham fome, frio, que lhes faltava um dono,
um colo, um mimo. Olhava para o filho e ficava feliz de vê-lo confortável,
quentinho, no berço, sabendo que teria quem cuidasse dele e ela faria o melhor
soubesse. Era impossível não se emocionar olhando para ele. Começava a achá-lo
bonito. Não sabia se aquilo era instinto maternal. Tinha medo que se engasgasse
durante a noite, tinha medo da morte súbita, que adoecesse e ela não
percebesse, de não entender porque chorava. Havia muitas coisas que lhe
causavam pânico. Talvez fosse isso que não deixasse espaço para outros
sentimentos.
Com o correr do
tempo foi percebendo e sentindo que cada dia gostava mais dele e que cada dia
estava mais ligada a ele. Já fazia parte do seu dia-a-dia e das suas rotinas. Percebeu
também que se apaixonara profundamente por ele quando teve noção que mudar
radicalmente a sua vida já não lhe pesava. Não se importava de passar os dias
inteiros na sua companhia, de ajustar as suas horas às dele, coisa que nunca fora
capaz de fazer com ninguém. A conciliação, as horas marcadas, o seu espaço e o seu
tempo invadidos sufocavam-na. Talvez nunca tivesse amado ninguém o suficiente
para que a sua presença constante não constituísse um peso que ela não conseguisse
suportar.
Descobriu que há inúmeras
maneiras de gostar; que não se gosta só de uma e que cada uma se reveste de
muitas intensidades, muitos coloridos e tonalidades. Com ele já percorrera um
leque variadíssimo delas e continuava com a sensação de que ainda a aguardavam
muitas outras formas de amor a descobrir.
Foram crescendo juntos
e ficando cada vez mais próximos. O tempo foi-lhe mostrando também que ela não
poderia morrer. A ideia da morte deixava-a transtornada. Que seria dele? Quem
tomaria conta de si? Ninguém o entendia como ela. Ninguém sabia lidar com ele,
só ela. Nenhuma criança deve ficar sem a mãe, e o seu menino não fugia à regra
com a agravante de que não era uma criança como as outras. Era especial, era
diferente. Ela não sabia de que forma mas sabia que o era.
Essa percepção da
diferença fazia com que a ideia da morte se tornasse ainda mais pesada, mais
assustadora. Ninguém poderia ajudá-lo para além de si
Só ela lhe sabia
ler os olhos. Não os olhos de todos os dias, mas os outros. Só ela sabia o que
estava por trás daquilo que ele dizia e só ela sabia o que os seus silêncios queriam
dizer. Só ela lhe conhecia a alma. Falavam com os olhos, falavam com as mãos,
falavam quando estavam calados. Iam-se descobrindo em conjunto. Ela ia-se revendo
através dele. Muitas vezes era como se ele fosse um espelho de si.
Aconteceu-lhe, nos
dias mais difíceis, cair na cama arrasada, sem forças, frustrada e totalmente
perdida sem saber como lidar com aquele menino: Tinha medo de morrer durante a
noite. Punha-se, então, a imaginar como seria se ele acordasse de manhã, fosse
ter consigo à cama, e ela estivesse morta. Outras vezes começava a fazer
mentalmente uma lista das pessoas que poderiam ocupar-se melhor dele se ela
morresse. Ninguém servia. Por isto ou por aquilo, ninguém teria capacidade para
lidar com ele. Iam estragá-lo, fazê-lo sofrer. Não saberiam ensiná-lo a viver
com a diferença. Isto deixava-a angustiada, doida de dor e pensava tantas vezes
que se um dos dois tivesse que morrer que fosse ele. Ela aguentaria melhor
ficar sem ele do que imaginá-lo nas mãos de quem quer que fosse. Sabia o que
ele iria sentir, sabia o abandono a que acabariam por votá-lo, iriam desistir
dele porque pura e simplesmente havia dias e dias seguidos, tantas vezes,
semanas e semanas, que pareciam intermináveis, em que era preciso uma força que
lhe vinha não sabia de onde para aguentar aquele anjo que, de repente, se
tornava no pior dos diabos. Mais doloroso que aguentá-lo era não conseguir
entender o que desencadeava aquilo e como atenuar aquela raiva. Trazer de volta
o menino meigo e feliz que ele era, fora muitas vezes tão complicado, era tão
extenuante que ela tinha a certeza que ninguém mais para além de si o
conseguiria fazer. Tirá-lo das suas mãos seria deixá-lo permanecer no extremo
oposto daquilo que ele era; ninguém o suportaria, ninguém o aguentaria, nem ele
a si próprio. Ficaria enclausurado dentro daquela dor que o transformava num
ser intratável, capaz de desesperar qualquer um; viveria para sempre
miseravelmente infeliz. Se alguém tivesse que ser miseravelmente infeliz que
fosse ela.
Foi nessa altura
que percebeu que em muita coisa também ela era diferente da maior parte das
pessoas. De uma outra forma, contudo, diferente também.
Via nas caras que
não o entendiam, o ar de estranheza que faziam, por ele e pela forma como ela
lidava com ele. Por que raio ela o deixava ser diferente? Por que não haveria
de o forçar a fazer o que os outros meninos da sua idade faziam? Às vezes
davam-lhe palpites, faziam comentários, e isso ainda a fazia ter mais medo de
morrer. Tudo o que lhe diziam tinha um peso brutal porque lhe mostrava que ela
não podia morrer ainda.
Deu por si a ter
pressa que ele crescesse. Cada ano que passava era um alívio porque significava
que ele estava cada vez mais próximo de ser mais autónomo, mais maduro, mais,
mais, mais,
mais tudo o que lhe permitira sobreviver melhor sem ela. E cada ano que passava gostava mais dele, e cada ano que passava aproveitava melhor cada dia que passava com ele. Cada um deles tinha o seu espaço e o seu tempo e depois havia o espaço de ambos e o tempo que era só deles.
mais tudo o que lhe permitira sobreviver melhor sem ela. E cada ano que passava gostava mais dele, e cada ano que passava aproveitava melhor cada dia que passava com ele. Cada um deles tinha o seu espaço e o seu tempo e depois havia o espaço de ambos e o tempo que era só deles.
À parte de tudo
isto, morrer deveria ser um descanso. Talvez por pensar assim não a incomodava
nada a ideia de não haver nada para além da morte. Achava mesmo que gostaria
que assim fosse.
A morte da sua mãe
fora a primeira morte que acompanhara de perto. Fora o primeiro funeral a que assistira.
Andava já na casa dos trinta. Acordou de madrugada, no dia da cerimónia, e julgou
que não conseguiria ir. Teve vontade de vomitar. Não tinha força nas pernas.
Estava cheia de medo daquele ritual, do caixão, do coveiro, daquilo que só presenciara
ainda nos filmes. Não houve velório. O último contacto que tivera com ela foi
no dia em que morreu. Apesar de tudo o que sentia naquele dia sabia que morrer
fora o melhor que lhe podia ter acontecido. Desejara-o tantas vezes, por ela,
não por si. Nunca conseguira abandonar totalmente a cobardia e o egoísmo de
manter sempre uma restiazinha de desejo que não morresse mesmo sabendo que
aquilo não era viver. Pensando nela, a ideia de que a morte pudesse ser uma
qualquer forma de prolongamento da vida a assustava. Tudo tem que ter um fim e
a vida também.
Durante bastante
tempo tivera muita dificuldade em “encaixar” dentro de si a morte dela e, pela
primeira vez, lhe agradou pensar que talvez ela tivesse algures, sabe-se lá por
onde e mantinha esperanças, de que como era sua mãe e, por isso a amaria
incondicionalmente, haveria de arranjar forma de lhe fazer saber que não a
tinha largado, que nunca se esqueceria dela. Essa ideia, embora não lhe tirasse
a dor, sossegava-a.
Ela queria saber se
estava bem. Claro que estaria bem, bastava-lhe ter morrido para estar bem. Era
um sentimento profundamente egoísta. No centro de tudo aquilo estava ela,
estava a dor que queria atenuar, estavam as suas saudades. Querer que ela não
tivesse “acabado” prendia-se mais consigo do que com ela.
Depois, há o filho
e por ele ficava a pensar na continuidade, no que significará a “continuação da
existência no outro”, e isso deixava-a sem saber o que queria face à morte.

Se este texto é um de livro, gostaria de saber qual é para o poder ler...
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