Aldo Cordeiro
Uma tarde
qualquer, numa rua do meu bairro, quadro de cena de uma história batida, das tantas a que
nos acostumamos e, de tão surrada, jogamos na lata do lixo.
Uma criança
suja, roupa rasgada, encolhida na porta de uma loja, chora
baixinho.
Também eu, olhos
já cansados das mesmas cenas, quase sigo adiante. Paro, no entanto, movido pelo
coração que não me deixa, naquele momento, ser apenas mais um que passa. Me
abaixo e...
- O que
aconteceu?
- Meu
cachorrinho... meu cachorrinho. Não explica nada, apenas repete.
- O que
aconteceu com seu cachorrinho?
-
...
Olho ao redor.
Pessoas alargam seu caminho, algumas com olhar de espanto. A cena é realmente
inusitada: um cara branco, aparência de aposentado, de bermuda, conversando com
um "intocável": deve ser gringo, poie é negro.... Não sabe o branco o perigo que corre....
Penso que são elas
que correm de qualquer possibilidade de contato, de doar um segundo de seu
estressado tempo à atenção do que constitui nosso mundo, duro, repleto de
adjetivos perversos, que condenam essas crianças à morte social, antes da morte
física, que os livra de uma vida sem futuro.
Um cheio forte de
solvente interrompe meus pensamentos. Um bando de garotos se aproxima. Mesma
condição: rasgados, semivivos, cada um com uma garrafinha da droga que tira a
fome e lhes dá um aspecto de pássaros negros cambaleantes. Asas quebradas nas
calçadas da cidade maravilhosamente cruel.
No meio deles, uma
menina com um caixote e... um cachorrinho, também ele preto.
Vou sendo cercado
por eles, enquanto as pessoas que passam se desviam do caminho um pouco mais,
formando um palco espontâneo mas alheio. O segurança da loja vigia atento. Afinal,
capitalizar é preciso, viver não é preciso (com licença do poeta
Pessoa).
Também sinto receio,
é claro. Pertencemos a mundos diferentes. Apesar de nunca haver sido molestado
por nenhum desses garotos de rua e ser roubado todos os dias pelo sistema de gerentes
engravatados, com suas taxas, impostos e corrupções impunes.
Os meninos estão
ali. O cachorrinho está ali. O menino para de soluçar e olha embevecido para o
objeto de seu amor que volta. Deve ter sido alguma brincadeira dos demais.
Sigo meu caminho,
com um tanto de tristeza, pelas histórias dessas crianças que se perderão no
tempo em seus capítulos previsíveis, e pelas pessoas que se afastam, que se omitem...
Hoje, acordei
lembrando dessa e de tantas histórias assim que já vi pelas ruas. Penso nos
tantos presépios de faz de conta que são montados pelo mundo, as pessoas em
torno de um Jesus fictício, nas igrejas abarrotadas, nas lojas apinhadas de
ávidos buscadores de presentes, nas roupas novas, nos tantos desejos vazios de
"feliz natal".
Multidões acreditam
em um Jesus que vai voltar, radiante, julgador, há Jesus nas Igrejas, nos
desejos, nas falas, um ideal de salvação e perdão distanciado do presente, há o
Jesus dos presépios, geralmente branquinho, limpinho, pobre, mas com pai, mãe e
seres reverentes ao redor, protegido por anjos...
E há muitos
meninos Jesus, perdidos nas ruas do mundo, crucificados por nossa indiferença,
medo, por um sistema que os segrega e condena ainda no berço, enquanto nos
empurra para as lojas da cidade e um mundo de necessidades inventadas.
Lembrei do
Robertinho, uma criança que cresceu nas ruas do bairro do Flamengo, educado,
respeitador, mas sem oportunidades na vida. Perdeu até o ânimo para aproveitar
as poucas oportunidades que recebia. Uma noite, encontrei-o numa calçada,
magérrimo, pálido. Contou que estava com AIDS. Falei de um hospital que atende
(ou atendia) na Tijuca, se ele gostaria de ir pra lá. Respondeu que queria
apenas um prato de comida. Que sentia fome e muito medo.
Seria demagogia
desejar feliz natal para essas crianças que conhecem papai-noel apenas como um
velhinho bem alimentado que fica dentro das lojas, onde sua presença não é
permitida. Talvez nem saibam quem foi Jesus Cristo, desligado das riquezas do
mundo, longe dos altares e das histórias inventadas a seu respeito. Prefiro
desejar a mim mesmo, e a quem sintoniza com este sentimento, que nunca nos
acostumemos com a engrenagem perversa da história e que tenhamos, no mínimo,
instantes de olhar para essas crianças e escutar suas lágrimas. Que 2014 e os
tempos futuros não ampliam os palcos de nossa indiferença e ilusões religiosas.
Nos tempos atuais, Jesus nasceria e seria crucificado no mesmo dia.
Aldo Cordeiro
Rio,
24.12.2013

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