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30 novembro 2006

A Casa dos Relógios (SRebouças)

Esta casa, decididamente, poderia ser chamada de "a casa dos relógios" E dos cinzeiros também, mas diminuiram muito em número depois que eu parei de fumar, mas como os outros fumantes aqui continuam neste maravilhoso vício, então ainda proliferam aqui e acolá.
Os relógios são uma paixão antiga, começamos a coleção há mais de 25 anos, em Canela, pertinho de Gramado, Rio Grande do Sul. E olhe que começamos mal, com um relógio que era feito de pedaços de outros... Depois foram os antiquários, Rua do Lavradio, feiras de antiguidades, e fomos acrescentando um a um. A maioria funciona, mas uma vez que v. dê corda à maioria, v. tem um festival de desencontros de batidas de horas, o que de madrugada convenhamos é um sucesso.O desencontro é por causa do simples fato de eles não serem movidos a bateria, minha senhora, não têm a perfeição de nossos relógios modernos... Então, estão fadados á imobilidade... Um dos relógios é japonês, a corda dele é dada da direita para a esquerda, não é piada...Já valeram muito mais em outros tempos, mas agora o mercado lançou réplicas de relógios antigos - até carrilhões - movidos a bateria, hora sempre certinha, e aí, babau! o mercado despencou. Mas a gente vai ficando velho, despencando lenta ou velozmente, alguns até pôem bateria (marcapasso)...Ma o che se va fare? Niente...

A Vendedora de remédios 2


...e aqui vão mais duas fotos mostrando-a em detalhes...

A Vendedora de Remédios (SRebouças)

Esta estatueta em bronze maciço com detalhes fisionômicos e do vestuário e adereços finamente lavrados, sempre me fascinou. Traz a tiracolo uma caixa com gavetas onde ela, vendedora de produtos medicinais, carregava pelos interiores do Japão.
Tem um sêlo em japonês na sua base, na lateral, autenticando-a. É pesada, de verdade. tem 37 cm de altura e pesa 6 quilos (precisa fazer dieta, hehe...)
Veste um quimono e usa sandalias humildes.
Mas o meu orgulho por possui-la não tem nada de humilde....embora no final todos saibamos ou aprendamos que desta vida nada se leva, nem terá utilidade para onde vamos...se vamos mesmo...Mas isso quem morrer verá !...

O Tremendão (SRebouças)

Se v. pensa que este dog alemão é uma fera, enganou-se redondamente. Não existe animal mais dócil, mais medroso, é o verdadeiro Scooby-Doo; criado com muita mordomia no Parque Guinle em Teresópolis, tinha uma casa (de verdade), que era a parte de baixo de um casarão, com sofás, mesa de centro, cortinas e outros móveis, e Raja - este o nome do nosso guerreiro - ainda tinha um imenso gramado á disposição...Foi-nos dado quando tinha 8 meses, e o dono, um senhor de mais de 70 anos, andava de moto e fazia alpinismo, vocês acreditam?
Foi-nos dado por alegados motivos familiares de um casamento desfeito da filha, mas isto aqui não nos interessa. O que interessa é o latido dele, que atemoriza quem passa na rua...Isto já vale! Ninguém está interessado em ter em casa um bicho feroz. Até a nossa rottweiller que só tem tres pernas e impõe respeito, é um doce de bicho...Esta história das tres pernas da Rita eu conto noutro post...

25 novembro 2006

1997/2005 (SRebouças)

Se eu pudesse remover do âmago de meu ser
Todos os pensamentos vãos e ideias vazias;
Ah! pudesse como num passe de mágica rever
a tua figura como em teus melhores dias...

Pegar em tua mão, ouvir-te palavras boas
recobrar-te os olhares que mostravam
todo o teu carinho e amor que emanavam...
mas nada! eram apenas balbucios, à toa...

De que adianta prantear umas lembranças
que há muito se perderam uma a uma?
Pois misturam adultos e crianças
num mero redemoinho de espuma...

Cuidem de suas Mães!... (SRebouças)

Quando os velhos chegam à idade que mereça este termo - velhos - tendem a regredir como se crianças se tornassem. São casmurros, enfezados, reclamam de qualquer coisinha, tudo os incomoda na sua santa e egoista paz...Mudam de humor a um simples agrado, uma palavrinha gentil, um sorriso ou um beijo.
Minha mãe era uma dessas velhinhas que as pessoas na rua paravam para exclamar o quão bonitinha ela era. Como tinha uma dificuldade de locomoção que se acentuava, comprei-lhe uma cadeira de rodas, para que as empregadas pudessem leva-la até o calçadão de Copacabana, onde a fotografamos conversando (sériamente) num dos bancos do posto 6 com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Já entenderam que ela já havia perdido -desde 1997 - a lucidez, e todas aquelas bençãos de que não nos damos conta quando estamos em plena saúde mental...
De 1997 a 2005, quando faleceu, eu fui um guardião atento dela, colocando a seu lado três empregadas simultaneamente e mais uma amiga secretária do consultório que lá passava todos os domingos. Tudo para lhe dar um ambiente de alegria, de brincadeiras, de farrinhas inocentes, como tomar água de côco na beira da praia, ou sorvetes, fingir fofocas, essas coisas.
Diálogo já não tinhamos mais há anos, nada tipo conversa com a interveniência da razão, do raciocínio, da pesagem de prós e contras, enfim, nada. Eu me conformara já, tudo o que eu queria era que nada, nada lhe faltasse. E não faltou.
Era gulosa, a danadinha, se alimentava bem.
Era uma figura de biscuit, um sorriso que suscitava cumplicidades e aliciava amizades, principalmente nas ruas em sua cadeira de rodas. Tenho, confesso, tido muitas dificuldades em 'colocar uma pedra' neste assunto desta perda. Acho que conseguirei, brevemente. Mas a todos vocês que têem mães neste estado, um conselho: dêem tudo de si para que elas tenham um fim DIGNO. Ou carregarão na consciência um peso como uma ferida que não quer mais se curar...

Divagações perambuladas (SRebouças)

Às vezes a gente não vai a lugar nenhum; perambula, como se diz. Embora este termo tenha para mim uma conotação de vagabundagem, de gente atoa andando por aí, mas é no fundo uma boa palavra, porquê veste aquilo que se quer dizer. Perambular - enrola na lingua, termina com a lingua dócilmente pousada nos dentes de baixo...
Pois, perambulava eu numa praça movimentada, depois de me desvencilhar de um chato (mais até do que eu) amigo, daqueles que gruda e não desgruda fácil, e aconteceu que eu saí meio desfreado daquela conversa morna, caminhando com mais rapidez que normalmente, querendo me afastar antes que o gajo me chamasse lembrando de uma qualquer outra coisa pra me contar, quando o rabo do olho esquerdo me mostrou um carro que fazia um retorno com uma velocidade fora do comum, cantando pneus, e em que ao mesmo tempo eu quase atropelava, na minha pressa, uma mocinha que começava a atravessar. Não há margem de raciocínio, não há uma ordem estipulada e padronizada, apenas o instinto funciona nesta hora: puxei o que pude agarrar à minha frente, poderia ser a cintura, um braço, o pescoço dela, sei lá; só sei que dei-lhe um puxão com tal vigor que ambos fomos cair sentados para trás, ela por cima de mim, eu a fazer-lhe de cadeira. Lembro ainda que o carro completou a sua curva assassina e se perdeu na via principal, não sem que o acompanhasse uma minha solene praga: "que um poste um dia te ache, filho da p..."

06 novembro 2006

TABACARIA - Fernando Pessoa (integral)

Não sou nada.Nunca serei nada.Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
domeu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(e se soubessem quem é, o que saberiam?),
dais para o mistério de uma rua
cruzada constantemente por gente,
para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
real, impossivelmente real, certa,
desconhecidamente certa,
com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
a fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
de dentro da minha cabeça,
e uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
à Tabacaria do outro lado da rua,
como coisa real por fora,
e à sensação de que tudo é sonho,
como coisa real por dentro.Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?Que sei eu do que serei,
eu que não sei o que sou?Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!E há tantos que pensam ser a mesma coisa
que não pode haver tantos!Gênio?
Neste momento
cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
e a história não marcará, quem sabe?,
nem um,
nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
- sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
e quem sabe se realizáveis,
nunca verão a luz do sol real
nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo,
ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético
mais humanidades do que Cristo,
tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
ainda que não more nela;
serei sempre o que não nasceu para isso;
serei sempre só o que tinha qualidades;
serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta
ao pé de uma parede sem porta,
e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
e ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
o seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
levantamo-nos e ele é alheio,
saímos de casa e ele é a terra inteira,
mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata,
que é de folha de estanho,
deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
a caligrafia rápida destes versos,
pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
nobre ao menos no gesto largo com que atiro
a roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
e fico em casa sem camisa.
Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
ou não sei quê moderno - não concebo bem o que
- tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
a mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.Vejo as lojas, vejo os passeios,
vejo os carros que passam,
vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
vejo os cães que também existem,
e tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
e tudo isto é estrangeiro, como tudo.
Vivi, estudei, amei e até cri,
e hoje não há mendigo que eu não inveje
só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
e penso: talvez nunca vivesses nem estudasses
nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso).
Talvez tenhas existido apenas,
como um lagarto a quem cortam o rabo
e que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube
e o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era
e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
já tinha envelhecido.Estava bêbado,
já não sabia vestir
o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
e não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
calcando aos pés a consciência de estar existindo,
como um tapete em que um bêbado tropeça
ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
e com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
sempre uma coisa defronte da outra,
sempre uma coisa tão inútil como a outra,
sempre o impossível tão estúpido como o real,
sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
e saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
e a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
e continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?)
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)Como por um instinto divino
o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!,
e o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança,
e o Dono da Tabacaria sorriu.