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27 setembro 2006

Escadas abaixo, escadas em vão (SRebouças)


Escadas que hei percorrido degraus acima e degraus abaixo...
Lembranças reencontradas de um princípio de vida profissional
Quantas vezes parei a apreciar tua serena construção,
onde a cruz de malta nos dava o norte e o sul das misérias humanas...
Mas tantos anos se passaram e tudo - ou quase tudo mudou...
A Casa, que era uma grande aldeia médica, hoje
é uma imensa máquina de faturar. Onde a piedade e a entrega,
onde aquele calor humano, onde as figuras médicas dignas de meu passado ali?...
Hoje, transformado numa espécie de HAL, a máquina infernal de Odisséia no Espaço,
os computadores estendem seus braços impessoais pelos quartos,
pelos CTIs, pelas UTIs, pelas enfermarias, pelos quatro cantos da Casa,
e envolvem na sua frieza o próprio coração de seus médicos e enfermeiras.
Todos temos a tendência de achar que o passado foi melhor que o presente;
mas aqui, eu confesso, dispo-me de qualquer lembrança relativa àqueles anos
que vivi naquela Casa e me entrego
a uma saudável amnésia seletiva. Nunca mais!...

19 setembro 2006

Um Arnaldo (SRebouças)

Meu pai adorava ir ao centro da cidade, coisa que eu sempre detestei em todas as quadras de minha vida.Lá ele encontrava os amigos e os colegas do Clube Militar, situado na esquina da rua Santa Luzia com a avenida Rio Branco. Ia sempre à tarde e às vezes calhava de me levar a reboque, ou para comprar algo específico para mim, ou ir á biblioteca do Clube, onde menino eu já havia devorado quase todos os mestres do romance policial da época...
Dentre os pontos obrigatórios de meu pai era dar uma (longa) passada na loja de um alfaiate português muito seu amigo, o Arnaldo.
Preciosa figura este Arnaldo! Sempre de camisa social e gravata, as mangas arregaçadas, uma alfineteira presa a um dos braços, cigarrinho aceso quase sempre, amarelando-lhe os bigodes.
Tinha uma bela cabeça, o seu Arnaldo. Uma cabeleira basta, poderia ser um maestro que ninguém diria nada, era uma aparência leonina, sendo os cabelos divididos entre grisalhos e amarelados, de uma pintura castanha que logo se esmaecia. Tinha a pele muito alva, e eu sabia que era casado com uma mulata. Seu timbre de voz, naturalmente de baixo, conservava o sotaque português, e já cá estava no Brasil há muitos e muitos anos. Sua oficina era ampla, de frente para a Rio Branco, muito arejada, duas grandes janelas, duas grandes mesas, retalhos de fazendas, esquadros de madeira e enormes tesouras. Tinha uns tres ou quatro oficiais, todos de meia idade, sempre em atividade, todos com um metro de pano ao pescoço, parecendo crachás, e nunca se furtavam aqui e ali a um dedinho de prosa com os clientes, "para descansar os dedos"...Prateleiras de cortes de tecidos, giz também não faltava, e muitas revistas de moda masculina para que seus clientes escolhessem seus ternos, que eram o seu maior movimento, pois grande parte da oficialidade fazia suas roupas com ele.Falava-se de política, às vezes apaixonadamente, e era o assunto principal para minha grande chateação. Meu pai quando faleceu, eu tinha 33 anos, e nunca mais soube do seu Arnaldo – que esteja bem, onde estiver, bom amigo de meu pai!...

REQUIEM (SRebouças)

SILENCIOSAMENTE ESPREITO POR ENTRE
AS FRESTAS QUE ME RESTARAM
DESTE SENTIMENTO ESTREPITOSAMENTE
EXTRAPOLADO E CRÚ.
TRANCO AS JANELAS E PORTAS A TENTAR
NÃO MAIS OUVIR O SOM
DESTE CORAÇÃO QUE PARTE, PARTINDO...
SÃO TANTOS QUE PARTIRAM
TANTAS VEZES SEM SEQUER SENTIR-SE...
ELES PARTEM, NÓS PARTIMOS - NO GERAL.
MAS DIA CHEGA EM QUE TU PARTES
E CONTIGO UMA PARTE DE MIM.
E CHEGARÁ O DIA EM QUE EU PARTIREI TAMBÉM,
SEM ESTRÉPITO, SEM PROCLAMAS,
SEM PREVISÕES AGOURENTAS,
MAS SIM, PARTIREI.
E RESTARÁ UM VAZIO QUE TALVEZ
NUNCA HAJA SIDO PREENCHIDO
E NESTA VÃ CORRENTE QUE DESLIZA NOS DESVÃOS
DESTA VIDA CORREDEIRA E RENOVADORA
OUTROS ALGUÉNS ESTARÃO
SEMPRE CORRENDO ATRÁS DO NADA.
hesseherre

12 setembro 2006

ANATOGRAMA (SRebouças)

Percorri o pavilhão auditivo
escorregando em sua cera natural.
Conversei com as pupilas
do senhor reitor - aliás
com medo que ele me mandasse
prender no gradil costal.
Lavei minhas cuecas na bacia ilíaca
e pus pra secar nas minhas cordas vocais.
Procurei minha jaqueta de couro cabeludo
e não a achei no fundo de saco de Douglas...
Mas achei inúmeras costelas onde
deveria haver outras tantas evas
que haviam já se evaporado.
Não costumo confundir
bronca com brônquio
embora seja mestre em tocar a campainha ao fundo...
com um som deveras estridente!...
A vacina que tomei veio acondicionada
numa ampola retal...
Tomei a cuja ouvindo rádio
e dizendo a mim mesmo: - “É o cúbito!”
Se vou dormir conto cuidadosamente:
umbigo, doisbigo, trêsbigo...quinzebigos...
E só pego no sono apoiado na coluna,
encima do sacro sudário, ao som da Ave Maria.
Falta-me ciso, pára de amolar –me
Preciso ser mais incisivo?
Pára de abanar este rabo canino!...
Pulo do trapézio direito para o esquerdo
Misturo homem com grana
Sai daí uma omoplata...- não confundas
clavícula com claviculário
nem mossa com leite moça -
(hoje vou comer fígado à Prometeu
com muita batata da perna...)

06 setembro 2006

Nem um pouco... (SRebouças)

Minha avó paterna morreu de pneumonia e no ano seguinte passou a ser comercializada a Penicilina de 400.000 unidades, que curaria sua doença em uma dose única...Tantas doenças de lá para cá passaram a ser melhor diagnosticadas, tratadas devidamente, curadas definitivamente...A saúde no campo científico melhorou e muito. Melhorou com isto a raça humana? Nem um pouco!
Em todos os campos da inventiva humana aconteceram melhoras radicais, chegamos ao atrevimento de pisar na Lua, pondo por terra o romantismo teimoso dos poetas e dos enamorados...Melhorou com isto a raça humana? Nem um pouco!
Do obscurantismo e da ignorância das eras passadas caminhamos passo a passo para a iluminação das grandes descobertas, o bicho homem passou a contar com deslocamentos rápidos e seguros, e graças aos computadores avançou no tempo e venceu barreiras...Melhorou com isto a raça humana? Nem um pouco!A informática, os meios de comunicação, a possibilidade de percorrer grandes distancias em tempos curtos, dariam para o bicho homem ver realizada a sua necessidade de uma administração eficiente e que lhe desse segurança, saúde, tranqüilidade quanto ao futuro...Melhorou com isto a raça humana? Nem um pouco!


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PÍLULAS & FARPAS
As pessoas não têm mais tempo de conhecer nada.Compram tudo pronto nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, elas não têm mais amigos.
Antoine de Saint-Exupéry
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05 setembro 2006

Nossas cidades gradeadas... (SRebouças)

Nossas cidades gradeadas: presídios de segurança mínima
No jornal, primeira página, em destaque, a foto de um camburão com a porta aberta, um assaltante de bancos preso e uma advogada da Comissão de Direitos Humanos/ OAB, acompanhando o coitadinho. Olhei pela janela, refletindo acerca desta disponibilidade solidária talvez elogiável, e tentando lembrar se, nas horas em que a televisão focalizou o infeliz episódio do 174 no Jardim Botânico, se alguém de alguma facção de Direitos Humanos havia aparecido no local e tentado entrar no ônibus para agir de alguma forma; não me lembrei de nada. Enquanto olhava pela janela, contemplei ao longo da minha rua as grades, muitas grades, nas calçadas, nas portas, nas janelas, pintadas em grafite, em verde, em azul e preto.Vivemos em uma grande penitenciária urbana. Nas ruas, as pessoas se sentem ameaçadas, seja pelas esburacadas calçadas, seja pelos trombadinhas, seja pelo trânsito irresponsável e desordenado.
Se nos ônibus a insegurança já é grande, nos carros e taxis é pior. Quase não existem cruzamentos em que não fiquemos à mercê de uma gama variada de abordagens, quando o sinal fecha. Os vendedores de refrigerantes, de frutas, de biscoitos, de lápis, de doces, de flanelas e artigos para carros, listas pedindo ajuda para comprar algo, pedidos de ajuda para o ceguinho ou o deformado, ou o paraplégico de cadeiras de rodas, mendigos e doentes reais ou falsos, um exército a se acercar dos carros, composto por adultos e crianças. Nós somos cidadãos que devíamos ter o direito de ir e vir em paz, não pagamos impostos de toda ordem para que sonhadores achem que somos os culpados por uma sociedade injusta; pagamos tais impostos para que aqueles em quem votamos organizem uma pirâmide de profissionais realmente dispostos a sanar problemas e encaminhar soluções em saúde, em segurança pública, em ensino, em manutenção de ruas e estradas, em obras de interesse coletivo, em tudo enfim que se refere a governo.
Quando uma agência de publicidade (edição do jornal de hoje) mostra um anúncio de carros blindados de uma concessionária de uma faixa de preço acima, bem acima das possibilidades econômicas da grande maioria da população que pode mal e mal ter um simples carro, dizendo este anúncio: “Compra, tio(esta é a ultima vez que você vai ouvir isso)”, mastigando, como uma Maria Antonieta moderna os seus brioches, sem querer, atingiu, não tanto os felizardos compradores em potencial daqueles veículos de primeiro mundo, mas a imensa maioria daqueles que têm de andar pelas ruas com os vidros de seus veículos levantados, temendo cada sinal fechado e esperando ser assaltados ou agredidos numa recusa a qualquer oferta ou pedido não desejados.Respeitar-nos em nossos direitos não é uma forma de Direitos Humanos?

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PÍLULAS & FARPAS

"As pessoas esqueceram esta verdade", disse a raposa.

"Mas v. não deve esquece-la: você se torna eternamente responsável por aquilo que cativa".

Antoine de Saint-Exupéry

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Bondes, V. se lembra? (SRebouças)

Já andei muito de bonde nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Lembro-me que acima do espaço reservado ao condutor, de frente para nós passageiros, havia sempre um painel publicitário, ou das Casas Mattos com várias figuras brejeiras ou a de um xarope, com a clássica figura de um homem amordaçado e a frase: “Larga-me! Deixa-me tossir!”. A figura do cobrador me fascinava: o homem, de uniforme azul marinho, um equilibrista, um quepi sobre as orelhas, suado, passando por detrás das pessoas que viajavam nos estribos, cobrando também das que viajavam sentadas, fazendo o troco, puxando aquela cordinha que tilintava marcando cada passagem...
O ruído das rodas nos trilhos, as curvas para um lado e outro, o tinir da campainha – era outra cordinha - que os passageiros acionavam para avisar que desejavam saltar, o tagarelar das pessoas a bordo...Eram tempos mais descontraídos, mais alegres, não haviam estas hordas de pivetes, não havia esta vigilância ferrenha de bolsas e pacotes.
Conviviam, os bondes, com os ônibus e os carros da época – nem eram tantos e de tantas marcas assim – num trânsito em geral fluente e calmo. Havia, em cada acesso àqueles bancos de boa madeira, feitos para resistir ao dia a dia, às bundas de todos os tamanhos, ao sol e à chuva, do lado aberto e do fechado, cortinas plásticas transparentes de enrolar, para o caso das chuvas. Eu gostava muito de viajar nos bondes à noite, iam mais vazios, o transito fluía ainda melhor, as distâncias ficavam mais curtas.
Que saudades dos velhos bondes...
HesseHerre

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PÍLULAS&FARPAS


O homem se torna muitas vezes o que ele próprio acredita que é. Se insisto em repetir para mim mesmo que não posso fazer uma determinada coisa, é possível que acabe me tornando realmente incapaz de fazê-la. Ao contrário, se tenho a convicção de que posso fazê-la, certamente adquirirei a capacidade de realizá-la, mesmo que não a tenha no começo.
(Gandhi)

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04 setembro 2006

Contando um sonho sonhado várias vezes (SRebouças)

Eu morava numa rua, Constante Ramos, que desembocava na principal, a Avenida N.ª S.ª de Copacabana - adivinha o bairro? - e na esquina delas havia um sobrado grande e cinza, de dois andares; na parte de baixo um grande armazem, o armazem Americano, onde minha avó comprava e as despesas iam para o seu caderno no armazem - bons tempos!... e havia também um botequim, que depois foi transformado em lanchonete. Na parte de cima três apartamentos, sendo o do meu avô o maior, de esquina e tinha à toda a volta uma grande varanda estreita . Subia-se uma escada, chegava-se a uma porta em frente que dava para uma área descoberta para onde confluiam quase todos os aposentos da casa, e a uma sala aberta à direita, que era a sala de espera de meu avô, o dentista, ornado em tres paredes de grandes quadros pintados por minha avó, que como em tudo na vida era pintora auto-didata. E a quem indubitavelmente eu saí.
O meu sonho ocorreu várias vezes, e começou depois que nem mais aquele conjunto habitacional/comercial existisse, dando lugar a um prédio de apartamentos. E se deu depois que meus avós, inclusive, hovessem falecido. Aliás, vários familiares nossos já haviam 'saído' de cena...
Mas vamos ao sonho. Eu passeava na rua, chegava até a esquina (sempre à noite) e sabia que meu avô estava viúvo e sózinho; mas nós brigáramos, ignoro a razão, e deixaramos de nos falar e até de eu ir à sua casa. Eu via as luzes do seu quarto acesas, as janelas de taboinhas sempre fechadas, e sentia uma imensa mágoa, ele velhinho, sózinho, naquele sobrado...eu ficava muito triste, mas não tomava nunca a iniciativa de ir ao seu encontro...
Um dia, tomei coragem, fui até a porta da rua, que estava só encostada, como era usual naquela época, subi a escada, e ao chegar lá em cima fui envolvido por uma luz branca, fortissima, ofuscante. Havia uma mesa enorme, redonda, (inexistente, na verdade) e, em torno, eu SABIA que estava ali mas não VIA, toda aquela parentada, já falecida,junto a muita gente que ainda era viva, reunida como se fosse numa festa. Eu sabia que estavam todos ali, aquilo me dava um grande conforto no coração, mas o ápice foi quando meu avô se aproximou e me deu um abraço muito apertado.Não trocamos nenhuma palavra, nem era preciso.
Esta parte de subir as escadas e ir ao encontro dele só se deu na última vez em que tive este sonho; de resto, o sonho sempre terminava na minha mágoa imensa por não tomar uma atitude em relação a meu avô, a quem de resto sempre amei muito e com quem nunca tive a menor discussão...
Devia estar faltando algo, dentro da minha mente, em relação a ele, não sei, mas o fato é que quando aquele reencontro se deu os sonhos cessaram para nunca mais voltar....E meu coração encontrou uma paz enorme, que persiste ainda quando me recordo deste sonho. Acredite se quiser...

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PÍLULAS&FARPAS
"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade em que elas acontecem.
Porisso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
(Fernando Pessoa)
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02 setembro 2006

Existe um velho ditado: "Há males que vêm para bem..."(SRebouças)


Existe um velho ditado: "Há males que vêm para bem..."
Atribuo ao episódio desta minha cirurgia de vesícula biliar e principalmente ao infarto sofrido dois dias após, o ter encontrado forças para abandonar o vício do cigarro, que persistia há 51 anos...Ao tratar da depressão com antidepressivo e ansiolítico, fiquei coberto na minha ansiedade e pude passar ileso por um período que, de outra forma, seria tremendamente penoso.
Sou grato àquele cardiologista da Barra que me disse enfáticamente: "o cigarro é INEGOCIÁVEL...." esta ênfase, aliada ao meu temperamento ecoou, levando-me à depressão e seu consequente tratamento.
Ora, que melhor meio de v. se afastar do vício do cigarro senão sendo amparado por esta soma de ansiolítico e antidepressivo? Pastilhas e adesivos, laser e psicoterapia, nada se compara a este tipo de tratamento, que em boa hora eu estou fazendo. E não há intoxicação ou possibilidade de vigarismo, como eu mesmo tive oportunidade de ser lesado, num "consultório" na Praia do Flamengo. Deixar de fumar só se consegue com uma vontade férrea, que poucos têm, ou então auxiliado medicamentosamente, como no meu caso. O resto é caça-níqueis... E é claro, v. tem mesmo de ser colocado contra a parede: "o cigarro é inegociável"... após um infarto, cai a tua ficha e o ruído é cristalino: "afinal, eu quero viver!....

01 setembro 2006

Enfim Velho... (SRebouças)


Pois é certo que o Homem se divide em cabeça, tronco e membros. Os três segmentos caminham juntos, harmônicos, solidários, pela estrada em declive da degradação e nem nos apercebemos disto...Ou talvez aqui e acolá tenhamos noção de que algo não está lá muito legal, mas ignoramos a panorâmica do processo.
De súbito, ao cabo de algum processo diagnóstico, fruto de um exame mais acurado a que nos submetamos, a luz se faz e nos conscientizamos da realidade: estamos um caco.
Em todos os distritos as luzes de alarme se acendem e apagam, frenéticas.
Como num painel de companhia de aviação, no aeroporto, aparecem aos nossos olhos, em colunas e verticalmente dispostos, todos os achaques que nos agridem, às vezes até silenciosamente e há anos:

CALVÍCIE INCIPIENTE E PROGRESSIVA,
SURDEZ, CADA VEZ MAIS EVIDENCIADA,
MICOSE REBELDE NOS PAVILHÕES AUDITIVOS,
MIOPIA, ASTIGMATISMO E PRESBIOPIA,
CONSTIPAÇÃO INTESTINAL
DENTES ARRANCADOS E IMPLANTE DENTÁRIO,
SEQUELAS PERSISTENTES DE UMA PARALISIA FACIAL,
HIPERTENSÃO ARTERIAL,
ESCOLIOSE DORSO LOMBAR (ESTA VEM DESDE PRISCAS ERAS)
BROCHURA CRÔNICA ( PREPONDERANTEMENTE IATROGÊNICA- quer dizer causas médicas) HIPERTROFIA PROSTÁTICA (POR ENQUANTO COMPENSADA)
COLELITÍASE E COLECISTITE CRÔNICAS
HIPERTROFIA HEPÁTICA E ESTEATOSE
PASSADO DE HEPATITE B
GASTRO ENTERITE AGUDA RECENTE
HÉRNIA UMBELICAL (OBLITERADA PELA MÃE NATUREZA)
HÉRNIA DA LINHA BRANCA(acima do umbigo)
PERDA PROGRESSIVA DOS PELOS DO CORPO POR DEFICIT HORMONAL
("perninhas de Marlene Dietrïch"),
CONSTIPAÇÃO INTESTINAL,
PSICOSE DEPRESSIVA
.
E é “só”.
Só? Isto pensava eu...
Na linha de montagem para operar a vesícula biliar, tirei 45 dias
para melhor me preparar: eu precisava emagrecer, mudar a medicação cardiológica para a hipertensão, começar a dar umas caminhadas...Julgando-me enfim preparado, à luz dos meus exames pré-operatórios e a avaliação do risco cirúrgico, marcamos a cirurgia que foi feita no dia 17 de janeiro deste 2006.
A cirurgia foi primorosa, o cirurgião, videolaparocirurgião melhor dizendo, e meu colega de consultório, me botou no Centro de Tratamento Intensivo ou sei lá que nome ou sigla tenha aquilo, apenas por precaução.
Quando voltei a mim da anestesia, dei de cara com um ambiente totalmente diverso do quarto de onde eu saíra cheio de graças...à minha frente um velho recheado de tubos, respiradores, o escambau, à direita uma senhora, mais aparelhos, biombos, à esquerda outra pessoa... e aquilo foi um choque pra mim.Onde me meteram? que estava eu a fazer ali naquele antro verde? Pois todo mundo que eu conheci se operava daquela mesma operação e com uma semana estava passeando no shopping...que sacanagem aquela?!
Lembro que tentei urinar e não consegui, pedi que me passassem uma sonda de alívio e sairam 2,5 litros de urina amarela muito sadia.
A seguir, com aquele manguito desgraçado no meu braço direito inflando e esvaziando, a cada 5 minutos, senti uma dor fortissima na parte alta do abdome, dor em barra, em queimação, e chamei a enfermeira. Quando veio, informou-me, por traz da minha papeleta, que não 'havia nada prescrito para aquela dor'...
Lembro-me de ser levado a uma sala ali perto, onde, depois fui saber, me fizeram um cateterismo cardíaco.
As enzimas haviam acusado que eu infartara e o cateterismo confirmou.
Voltei para o meu quarto, e como eu me sentia bem de todo, não aguentei ali mais que dois dias e exigi alta hospitalar. Ser médico tem certas vantagens, uma delas é que te ouvem...
No final da tarde veio um jovem doutor que informou ser assistente da Cardiologia, me deu uma receita com um monte de remédios e um cartão do consultório do médico que me atendera naquele antro de desesperos sem eco, que ficava na Barra, num daqueles Edifícios Profissionais.
A cujo consultório obedientemente fui levado, dalí a alguns dias. Ele colocou no computador o CD da minha coronariografia, explicou que eu deveria fazer uma medicação entre 15 e 30 dias e depois seria feita nova avaliação para saber se eu 'entrava na faca' (cirurgia cardíaca) ou não. Imprimiu a lista de medicamentos, e ao me explicar com o papel na mão finalizou, demonstrando uma tremenda inabilidade em lidar com seres humanos e sua psiquê:
"E este é o Isordil sub-lingual...se v. sentir dor, ponha um comprimido debaixo da lingua, espere 15 minutos, se não passar coloca outro, vai para o hospital e me telefona..."
Quando acabou a consulta eu já havia entrado em parafuso, entrei num processo de depressão que nunca sentira antes, e a coisa ficou tão feia que até a psiquiatra tive de recorrer.Fiquei 3 meses sem trabalhar, tudo o que eu fazia era ficar na cama.Totalmente entregue. Graças aos esforços de meu irmão, fui levado a um cardiologista por coincidencia do meu prédio de consultórios, que retirou grande parte daquela medicação que foi considerada abusiva, exagerada e conflitante, fez uma prescrição racional e me trouxe uma grande tranquilidade ao afirmar: "no momento da coronariografia v. sabe se o caso é ou não cirúrgico...e o seu não é, porque v. tem uma circulação colateral muito rica..."
Hoje, as melhoras acentuadas, estou trabalhando normalmente, a depressão se esfuma, mas o episódio mostrou-me que a gente deve ser humilde, entender que é uma benção encontrar médicos devotados e bem intencionados, porquê em última análise, nós somos apenas cascas, e elas vão ficando cada vez mais frágeis....
Como diria Rudiyard Kipling, ao ler este relato:

“Sois um velho, meu filho...”