SEGUIDORES

31 agosto 2007

UM BELO DIA

"Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre."
(Clarice Lispector)

30 agosto 2007

Ferindo e conferindo SRebouças 1982

A CADA INSTANTE EM QUE ME EXPONHO,
QUERENDO OU ATÉ MESMO SEM QUERER,
UMA PALAVRA TUA FERE MEU SONHO,
FERINDO, SIMPLESMENTE, SEM OFENDER
ESTE TONTO, ESTE TOLO, ESTE BISONHO,
QUE MAL CONHECES
NEM QUERES CONHECER....
A CADA INSTANTE EM QUE
ME FORMULO ESTE SONHO,
QUERENDO OU ÀS VEZES ATÉ SEM CRER,
SINTO-ME TONTO, BISONHO,
POR NÃO SABER ME FAZER ENTENDER...
FERINDO SIMPLESMENTE
MESMO ATÉ SEM QUERER,
FERES O SONHO,
RASGAS A BOLHA QUE FLUTUA, TEIMOSA,
E TEIMOSA SIMPLESMENTE,
ESTA BOLHA TINHOSA
HÁ DE NOS MEUS SONHOS OUTROS SOBREVIVER!...

Verso/Reverso SRebouças 1982

Talvez haja um verso de despedida
talvez haja o reverso da ferida
talvez haja um reverso de despedida...
talvez só reste este verso, esta ferida.
Ferida que nasceu ao abrires horizontes
onde o horizonte já se não fendia...
ferida que se rasgou da noite para o dia,
revelando novos rios, caminhos e montes!
Talvez calhe aqui o verso de despedida
em palavras que acompanhem o movimento
de cada golfada exalada da ferida,
deste amor que avança e recua, lento,
na insistência da intuição apreendida,
no mesmo instante recusada, desmentida,
na impaciência de todos os amores,
na incoerência de palavras e cores,
na intransigência de não aceitar,
na intransigência de não negar,
na intransigência de ocultar, negando
na intransigência de aceitar, ocultando
cada golfada exalada da ferida
de um amor que recua ao mesmo tempo que avança...
Talvez, ó sim, caiba aqui o verso de despedida
de quem, impaciente, cala, aceita e cansa!

21 agosto 2007

O bar e um piano nos anos 70 SRebouças JUL70

Eu quisera que todos vocês se sentissem, súbitamente, imersos no mistério de luz e sombra, ao redor de seus copos louras lágrimas a escorrer, em suas mesas já tão marcadas e prostituídas nestas tantas noites, ao redor seus problemas, tão iguais, a percorrerem sentados o trottoir de suas decepções em luz e sombra, ouvindo a música romântica do piano de um cego...
É noite, e este papo manso e enganador que nos faz esquecer as horas, nesta mesa num bar avarandado em Copacabana, os sons cada vez mais próximos do cochichar: destination bed.
Eu quisera que todos vocês destilassem súbitamente a azia de uma discordância, ao redor dos fatos estabelecidos que-são-assim-e-assim-serão, mas, por favor, não se trata de política, que é neste cenário ocupação menor...
De repente, não sei se foi a música, ou se foram os toques repetidos de nossos dedos, em torno de nossas cervejas, olho no olho, querença bilateral expressa na rouquidão das nossas vozes, o buerburinho abafado de outros confessionários à volta, o mastigar em uníssono das batatinhas a lembrar o cocheiro a estimular os cavalos a correr, mas eu senti dentro de mim naquele momento a justificativa que só o efêmero pode trazer ao ser humano em instantes maníacos de felicidade.
Só a música, e um mil folhas de intenções - não drogas, não álcool em excesso, nada artificial, pois ali tudo mostrava-se absurdamente real, na irrealidade quotidiana de nossas existências.
Decepções e expectativas que se revezavam, agora reduzidas à expressão menor, a música entrecortando, recheando, instigando, chamando, insistindo, proclamando, traduzindo e arrebatando mesmo que em segundo plano.
E éramos todos fantoches quase ébrios de felicidade e ilusão, escravos daquela música, música que até hoje, na memória, eu canto, assobio, sonho, canto, assobio, sonho, única música que consegui reter entre tantas que passaram em minha vida: resultante para onde caminharam as minhas lágrimas de alegria e tristeza, o meu espanto à beleza do sol, sempre que surge no horizonte, e o meu sempiterno medo pânico do escuro....


Apreensões apreendidas SRebouças 1970



As casinhas no morro em frente

mais e mais se vão recortando

em silhueta: é a noite que finda,

em profunda nostalgia.

Faz-se hemorragia nos céus, a luz começa a invadir,

e uma tênue inquietação desperta

e vagamente se agita na cama, em quieta retomada de vida.

Há carinhos que desejam o toque do corpo amado,

há cautelas que evitam o toque do corpo derramado,

há uma lembrança de sonhos sofridos,

já quase abandonados,

há uma áurea de irrealidade neste amor

de tantos passos desencontrados.

Há uma transcendência de esferas, um toque

de irreal, um sonho, um encontro,

um medo de acordar, de ver

findar de modo brutal

aquilo que ainda nem bem começou;

cessou já a hemorragia nos céus, é dia claro,

mas a hemorragia continua, dentro de mim.

Há nuvens carregadas e inquietas dentro de mim,

há um arco-íris de expectativas dentro de mim,

há desassossego de futuro dentro de mim.

O dia lá fora acordou: quando acordarei dentro de mim?...

Quando virá a palavra, o gesto, a intenção,

a quebrar os vidros da casa, forçar-lhe as portas,

arrancar-lhe janelas, desfazer a cama?...

Quando virá a dúvida, a amortecer,

a paralisar,

estrangular

rarefazer,

jugular,

estropiar,

mutilar,

enlouquecer,

e tanta coisa mais

em AR OU ER?...

Quantos passos mais daremos juntos,

quantas vezes mais nossas mãos se falarão,

quantas palavras mais, quantos sorrisos ainda virão?...

Quantos silêncios mais haveremos de compartilhar?

Quantos desencontros, quantas desilusões nos esperam,

quantas angústias, quantas solidões?

Quantas forças nos restam para opor ao tempo

este amor quue teima em se afirmar

longe de outros olhos, de outros corações:

tu e eu, olhos nos olhos, caminhando sós,

unindo cada vez mais nossos corações?





20 agosto 2007

Despedida quase completa SRebouças 1967

FRAGILE
Tenebrosas companheiras de horas de amargura,
Eia, enfim, vossa hora é chegada:
não mais vos alimentarei
com supositórios de cacau,
nem vos regalarei com pudins de cortizona...
não mais vos banharei em águas tépidas
nem vos acariciarei em alvas toalhas...não!
Macabras e intransigentes Fontenelles fecais,
a vigiar os autos da sofrida e 'perfumada' digestão,
megeras parasitas que congestionam
o indefeso tubo,
e riem-se de até chorar lágrimas de sangue!
Eu sei que esta despedida será
por trinta dias bem sofrida,
mas que importa, uma vez este prazo findo,
pois para de vós me livrar vale esta hora,
em que aqui me despeço, dormindo....
A bem da verdade, eu fui operar as hemorroidas, choquei durante o ato cirúrgico e fiquei na sala de 16 às 22 horas em recuperação...entre os médicos, chamamos a isto esmeraldite...

Das memórias de um pinico SRebouças 1969


Ela caminhou lânguidamente até mimetizar-se em duas róseas bochechas deliciosamente iguais e sem que eu nem mesmo esperasse tal gesto, sentou-se em mim...
***
Não posso nem devo piscar os olhos, aliás eles nem mesmo me pertencem...
***
O orifício dilatou-se, tal como eu temia, de róseo passou a roxo, tornou-se turgido; algo como um olho escuro surgiu no centro e me espiou malignamente, e foi crescendo, crescendo, até ocupar uma grande área entre as almofadas, silvando com o esfôrço, e eu embaixo, impotente, a tudo assistia...
***
Não creio na amizade dos seres humanos: só me tomam do braço e me levam para um canto mais reservado para me macular no fundo...
***
Róseas e lisinhas, escuras e cabeludas, no fundo, são todas iguais: vêm com muita pressa,
às vezes se demoram, e quando terminam me despejam na privada com o resultado de suas meditações.
***
O intestino é uma caderneta de poupança: quando afinal me procura, lá saem juros, correção monetária e eu tenho que proceder a uma re-avaliação das UPCs....
***
Tive um dono que era tão gordo que, quando me procurava, sentava-se e as 'bochechas' colavam-se ao chão, e eu ficava completamente oculto; e como soprasse sem parar por cima
e por baixo, eu tinha a sensação de estar num aeroporto, e que o gordo iria a qualquer momento sair voando, vítima de uma propulsão de suas próprias turbinas...
***
Pintaram-me margaridas do lado de fora; mas, de que adiantou?... as flores de um lado, o adubo do outro...
***
"Entre os vinhos selecionados para esta temporada, infelizmente não encontramos nenhum que fosse digno de figurar no menú desta ilustre e benfazeja Diretoria"...mas mesmo assim, como mijaram em mim...depois que cagaram no gerente.
***
Tenho fortes motivos para crer que se alguém não tivesse nascido homem, fatalmente te-lo-ia sido mulher; mas de qualquer maneira eu sempre seria a vítima.
***
De um modo geral, escondem-me sob a cama; assim, além de me lançarem as 'porcarias', tenho também de ouvi-las...
***
Não quero ser funcionário CLT: estaria arriscado a levar sempre a 13ª cagada...
***

16 agosto 2007

Apenas algumas lágrimas SRebouças 1963

A LÁGRIMA QUE BROTA DO FUNDO D'ALMA
E VEM MOLHAR-NOS O CORAÇÃO
VEM TAMBÉM RESTITUIR-NOS A CALMA,
VEM TRAZER-NOS DE VOLTA A RAZÃO.
PORISSO SE UM DIA VIRES
ALGUÉM A UM CANTO A CHORAR,
ANTES DE IGNORA-LO
COMO SE FOSSE UM FRACO,
É BOM OUVI-LO
NO SEU DESABAFAR.
POIS ATRAZ DA LÁGRIMA QUE CAI,
FURTIVA, ENVERGONHADA, HONESTA,
HÁ SEMPRE UM SONHO DESFEITO QUE VAI
MORRENDO COMO A ALMA ENVENENADA...
ASSIM, NÃO TE CUBRAS DE IRONIA,
RESPEITA-O E PÕE-TE A MEDITAR,
POIS POR TI TALVEZ UM DIA
ALGUMAS LÁGRIMAS ESTEJAM A ESPERAR!

Amor de repetição SRebouças 1967

HOJE À NOITE EU TE QUERO
NOVAMENTE, BRUTAL E TENSAMENTE QUERIDA,
NO REACENDER-SE DESTA PAIXÃO MEDIDA
PELO RELÓGIO DAS CONVENIÊNCIAS:
QUERO-TE GROSSEIRA
E DESVAIRADAMENTE POSSUÍDA
ESTUPRADAMENTE BELA NUMA CAMA,
EM TOTAL ABANDONO, EM TOTAL ENTREGA,
EM COMPLETA PREDISPOSIÇÃO
AO ATO FUNDAMENTAL.
QUERO BEBER TUAS LÁGRIMAS DE DOR
E JÚBILO,
NO SÁDICO PRAZER DOS CONQUISTADORES,
NO SÁDICO FAZER DE TODOS OS AMORES
COMO SE ESTA FOSSE
A VEZ PRIMEIRA.

Coisas de eternidade SRebouças 1970

DEIXA ESTE CIGARRO E VAI,
VAI LENTAMENTE, VAI,
FUMAÇA AZULADA,
DESGARRADA,
DESDENHADA - VAI!
VAI ATÉ AQUELA
QUE É ELA,
QUE É TELA - E VAI,
SERVE-LHE DE MOLDURA!
VAI, LENTAMENTE VAI,
E SEGREDA-LJHE OS SEGREDOS,
OS MEDOS,
OS LEDOS DEVANEIOS MEUS:
FUMAÇA DE TANTOS CIGARROS, VAI
E SERVE DE MENSAGEIRA DE QUEM
FUMANDO, ANSEIA, SONHA E ESPERA
E SEGREDA-LHE COISAS DE ETERNIDADE.

Como um Zumbi SRebouças 1967

Sinto-me vazio: de ideia, de rumo,
de futuro, de aspirações, de esperanças
de temores, de saudades, de lembranças...
estarei vivo?...
Já perdi a conta de há quanto tempo
e de quando tive a minha última idéia,
de qual foi meu último rumo,
de quando ultimamente pensei o futuro,
de quais as minhas últimas aspirações,
de quantas esperanças hei confirmado,
de quando me libertei
de meus temores últimos,
de quando foi a minha última saudade,
de quantas lembranças me tornei depositário,
e às quais dedico este suspiro último.

Os meus(teus) olhos mansos SRebouças 1970

Evoco teus olhos mansos, enquanto espero por ti,
olhos ternos, acariciantes,
olhos puros de criança, olhos mansos.
Olhos mansos, olhos que me olham,
e sem precisar falar, dizem-me coisas de amor.
Onde estão meus olhos mansos, onde estão?
Ah! teus olhos mansos me dão a paz que nunca tive,
a mansidão de uma estrada certa,
o passo firme, em divórcio de solidão...
Olhos mansos, meu abrigo de paz, onde estás?
Eu boio no lago das lágrimas que chorei outrora
sem nem mais me molhar.
No manso remanso do mormaço
do sol do teu olhar escondido,
no manso acalanto de um breve compasso
de um hino de amor incansávelmente ouvido,
evoco teus olhos mansos, e espero por ti.

Janeiro, águas, nove SRebouças 1970


Perdoa-me esta imagem um pouco exagerada,
mas à semelhança da água, assim te vejo, e nada
mais igual que a água, em minha mágoa,
onde a alegria efêmera, hesitante, sobrenada,
ao te ver ou ouvir ou tocar sempre lembrada,
eis que a lágrima nada mais é que água.
À semelhança da água, a cuja superfície sobrenada
uma alegria efêmera, hesitante, meio mágoa,
sem te ver, ouvir, tocar, eis-te lembrada,
e compreendo que a lágrima nada mais é que água.
És água, rio, cachoeira, manancial, onde se afaga
o sonho de um afogamento nos braços teus...
nascente que as grandes tormentas ou abalos não apagam,
vertendo sempre, alimentando sempre os sonhos meus.
São as águas sempre caprichosas e brejeiras,
voluptuosas, sobranceiras, altaneiras,
mas podem ser fios dificeis de acompanhar
ou mesmo redondas lágrimas a se formar...
mas não importa, são águas - cálidas, ferventes, geladas,
temperaturas que experimenta toda a gente
apaixonada
e que constata, afinal,
que a lágrima nada mais é e só que água!

15 agosto 2007

Caminho de chegada SRebouças 1965



Quantos há no mundo que erram, distraídos


e se vão pela estrada de tal forma absortos


sem reparar que ali, a seus pés, uma flor espera...


um pouco de atenção, os olhos mais abertos!


porquê tanta pressa, se estes passos incertos


nos levam a destino tão certo?


caminhemos devagar, vivendo cada passo,


tornando mais lento o compasso


da morte, que espera...


olha, apanha esta flor,


repara como é bela, inocente, pura!


a vida devia ser assim, amor,


para que a estrada, todas as estradas,


emolduradas de flores,


pudessem conduzir-nos,


suavemente,


à morte que espera...




Extintas coleções SRebouças 1967

EU VOU JUNTANDO LETRAS PARA FORMAR PALAVRAS
EU VOU JUNTANDO PALAVRAS PARA FORMAR FRASES
EU VOU JUNTANDO FRASES PARA FORMAR SAUDADES
EU VOU JUNTANDO SAUDADES PARA FORMAR IMAGENS.
E AS IMAGENS-SAUDADE ASSIM FORMADAS
SÃO FRASES QUE SUSSURRAM EM SILÊNCIO NO MEU PEITO...
SÃO PALAVRAS QUE RECOLHO
NO PÓ DE UM PASSADO PROIBIDO,
SÃO LETRAS QUE NEM FORMAM MAIS O NOME DO MEU BEM...
DE QUE ME VALEM AS LETRAS, PALAVRAS, FRASES,
DE QUE VALE ESTA SAUDADE TODA REPRESADA
E QUE VOU JUNTANDO NUM SILÊNCIO DORIDO,
SE EU NÃO TENHO MAIS SEQUER O NOME DE
MEU BEM?...

Animula Vagula... d'aprés M.Yourcenar 1982 SRebouças

"Anima vagula, blandula,
Hospes comesque corporis,
Quae nunc abibis in loca,
pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis locos..."
(Memórias de Adriano - de Marguerite Yourcenar)
[Pequena alma terna e flutuante/hóspede e companheira de meu corpo/ vais descer aos lugares pálidos duros nus/onde deverás renunciar aos jogos de outrora...] (M Y )




Eis-me, novamente, parado no tempo e no espaço,

criatura com vontade, sem vontade sequer de te-la,

criatura com desejos natimortos de esperanças,

na duração de toda uma vida, quando uma espera é descompasso,

mancha que olhos desatentos não conseguem perceber; parada esta mão, parado o corpo de sofridas andanças,

baqueia o coração, quando a lágrima furtiva

escapa ao controle, escapa entre os dedos envergonhados,

a mera lembrança da tua figura esquiva,

perdida talvez em lugares os mais inesperados:

ó eu quisera lutar, ser amado, ser-te merecedor,

mas sei em mim mesmo o destino do perdedor!

Estou, novamente, parado no tempo e no espaço,

fazia tanto tempo já que não sentia ou lembrava

da lâmina temperada de frio aço

que há tanto tempo sobre mim não pairava!

E que esta cabeça fervilhante, mero espelho d'alma,

pouse neste cepo manchado e suado de tantos amores,

de pescoços de todas as cores,

que pousaram, em desespero uns, outros em êxtase e calma,

a aguardar a queda final do cutelo, que silencia o coração e a razão!

Estou sim, não desejando embora estar ou ser,

parado no tempo e no espaço - e custa a crer,

que o dia lá fora esteja lindo e radioso,

se dentro de mim chove e eu me sinta tão desditoso:

se é tão bom amar, não é bom por isto sofrer,

embora sofrer seja paradigma de amar

Ah! este sentimento silencioso por fora, vulcânico por dentro,

quando as mãos crispadas definem um coração,

só se compara quando um vulcão

lava-nos a alma , estilhaçando senso e razão!

Este sentimento/silêncio ensurdecedor de todas

as querenças, doenças, dores tão intensas

sem sequer o alívio de uma palavra terna, a romper

este monótono tiquetaquear de um coração quebrado!




Pequena alma terna e flutuante
Hóspede um dia e fugaz companheira de meu corpo,
se acaso um dia desceres aos lugares pálidos duros
onde habitam solidão e desencontros,
inda que fugidias...desças, o coração pacificado,
pois não te deixarei renunciares aos jogos de outrora,
eis que o amor verdadeiro é assim:
VARIUS, MULTIPLEX MULTIFORMIS...( SR )







09 agosto 2007

Imagens que me passam, sem passar SRebouças 1985

E de repente, eis a tua imagem e lembrança
a se perderem
na esteira sofrida de meu lento despertar:
despertar amargo de uma verdade lentamente assimilada,
como um pesadelo travestido em realidade.
Sou, vivo, respiro, penso-me agora incólume,
mas não resisto
a examinar, com olhos que me contemplam de fora
como a um estranho que eu fosse,
esta figura, patéticamente mista de consternação
e self-control;
eu sou aquele que se propõe caminhar em frente,
mas não sabe sequer onde passa a estrada...
eu sou aquele que infla o tórax e escancara a boca,
pronto a desferir terrível brado de ira e aviso,
mas emite apenas um ganido de dor e mágoa.
Eu sou aquele que abraça, afaga e beija, fagocita e idolatra,
para descobrir depois que é um ator solitário
numa mímica vazia....
Eu sou aquele que acredita, confia
e se incorpora na figura amada,
para descobrir depois que equilibrara entre os dedos
uma bolha, apenas uma bolha de ilusão....
Do nada eu vim, ao nada retornarei um dia:
mas, como me doi ainda a ideia de ter vivido
ao longo destes quatro meses,
imerso e cego, na fantasia do nada!

08 agosto 2007

Reabilitando a lingua... SRebouças 1983

Órgão muscular por excelência,
vermelha como a glande, que não sendo muscular
é dela sucessora natural na competência
da nobre arte de fornicar;
esguia, achatada, molhada, viscosa,
como enguia mora numa caverna
de onde sai, às vezes furiosa,
sem nem porisso deixar de mostrar-se terna!
É parceira dos dentes no saborear dos beijos,
das bocas às vezes frias, às vezes candentes,
mensageira da saliva que se troca entre arquejos,
na volúpia dos momentos mais concupiscentes...
Órgão muscular por excelência,
mas a sua força reside na esperança:
cria lentamente a medo, uma querença
em todo o lugar que seu carinho alcança!
Órgão sexual atribuido aos velhos
pela maledicência de quem não a emprega,
de quem nunca se poz de joelhos
a saborear com ela uma gruta, acidente ou prega!....
Língua, que pode estar mole e logo após dura
no estudo atento e febril da Anatomia
lingua que investe, que enlouquece, mas não fura,
respeitando da glande sempre a primazia,
Língua, que no beijo realiza com outra igual
no recato de quatro lábios irmanados
aquele mesmo lésbico ritual
de dois corpos iguais e limitados...
Mas...as delícias que ela sabe proporcionar!
eis que numa relação qualquer que se prezasse,
nunca se ouviu de bons parceiros reclamar
que ela fosse má, irritante ou que agastasse...

06 agosto 2007

Em vão SRebouças 1958



Eu te procuro todas as noites nas ruas

em vão.

O corpo adorável que parece ocultar-se nas vestes

daquela mulher que eu sigo nas ruas

não é o teu;

nem o sorriso se parece,

nem as mãos são tuas,

nem o olhar afaga, nem a voz estimula,

não és nunca aquela que eu busco nas ruas.


Teus lábios, entrevistos ao luar, ou à luz

das estrelas, ou das boates, parecem mel

e eu provo incansável - e é fel.

Os traços perfeitos de perto não o são,

a voz que terias as outras não têm,

como o olhar que era só teu, e o aroma

que me embriagava de paixão...


E eu torno, incansável,

buscando nas ruas

aquela mulher que se oculta naquelas vestes...

nem sempre ao menos parece contigo

a mulher quie eu busco nas ruas

em vão.


O lamento do cravo SRebouças 1965


UMA ROSA MUI JOVEM

E UM CRAVO JÁ VELHO

NUM JARDIM SE ENCONTRARAM.


E AO VE-LA, FORMOSA,

O CRAVO CHOROU

DE AMOR PELA ROSA;


A ROSA TÃO JOVEM,

AO VER ESTE CRAVO

CHORANDO INDAGOU:


PORQUÊ CHORAS, Ó CRAVO,

SE A VIDA É TÃO BELA,

QUAL A RAZÃO?...


CHORO, RESPONDEU O CRAVO,

POR NÃO TER-TE À JANELA

DO MEU CORAÇÃO!...

Enterro de dondocas SRebouças 1966

Se alguém em desespero
seu morto vai enterrar

corra ao banco a retirar

no mínimo um milhão inteiro...


hoje em dia é bom morrer

caixão com ar refrigerado,

ingresso a vermes vedado,

vulcaspuma pra espairecer...


vistosos argolões dourados,

rendas, veludos, brocados,

iluminação interna, criatura!

e regulagem de temperatura...


maquiagem sim, tão perfeita

qual plástica de cirurgião

que o morto até afeta

ar de sono no caixão!


corbeilles esplendorosas,

feitas das flores mais formosas

e coche do ano para levar

o morto ao derradeiro lugar!


Hoje sim, é bom morrer....

mas morrer rico, "bem morto";

já eu, não vos escondo,

prefiro VIVER, sem confôrto!




Nasce um pintor abstrato SRebouças 1992

Partes de um todo apenas, apenas partes,
de um todo que se esconde,


que se perde - ou se ganha,


pelas bordas das telas,


infinito seguindo cada finito


momento enfocado...


Por mais que se reunam os pedaços,


estes pedaços que compõem os traços


são apenas partes, são apenas partes!


Não procures saber porquê, onde, como,


pois esta jornada começou quando


já havia muita poeira na estrada,


e poeira cansada!


Surgiu um feixe de luz em 86


ignorante das artes dos homens,


ele chegou: um feixe, várias cores,


o desenho brando


ou até ausente,


a harmonia cantando, as cores vibrando,


escuras às vezes, para clarear depois,


e são sempre partes, apenas partes!...


Ah! que eu amo o parir-se


meramente destes meus diabos,


que eu os exorcizo alegremente,


indolormente...


vêm a mim, vêm a mim,


nem sempre os tenho obedientes,


nem sei mesmo porquê


que eu os exorcizo alegre e indolormente,


vêm a mim, vêm a mim,


sem serem nunca planejados,


vêm a mim, vêm a mim,,


nem sempre os tenho obedientes


nem sei mesmo porquê


que nunca fui ensinado


a exorciza-los.




04 agosto 2007

Retrato 3x4 SRebouças 1986


Eu sou feito de versos,

palavras desencontradas,

gestos disciploinados, e gostos tão díspares.

Eu sou feito de brisas

palavras desocupadas,

restos dispersados,

em rostos tão diversos....

Eu sou de cada uma

criança procurada,

perdida no anonimato,

procurada e perdida no mesmo ato.

Eu sou o século, tecido

no dia a dia das paixões,

eu sou o corpo ferido

no dia a dia das intenções...

Eu sou feito de versos,

quero ser desencontrado,

quero ser indisciplinado,

quero ser desocupado,

como estes rostos e gostos tão

dispersos quão diversos.

Eu sou a perda de mim mesmo, criança procurada a cada perda

procurada e perdida no mesmo ato.

Espelho, espelho meu SRebouças 1985


Contemplo-me mais uma vez neste espelho

e não reconheço as feições de quem me espreita,

a boca vazia e amarga,

o nariz inchado e vermelho do tanto pranto...

estes olhos, repassados de dor....

Não! não sou eu!...entanto, o espelho não mente.

Não é justo que uma criatura no seu juizo perfeito

se deixe assim arrastar a um abismo, por uma história

que só aconteceu do lado de cá deste espelho....

...............................................................................

Porquê contemplar-me neste espelho,

onde outrora ao meu o teu sorriso se juntava,

e estas mãos tinham nossos dedos entrelaçados

em juras de amor não proclamadas...

Os nossos narizes cheiravam colados o mesmo ar

no prelúdio de cada beijo trocado.

Nossos corpos cabiam neste espelho

onde hoje resta só este corpo nú:

este espelho, que me recusa tua imagem,

e me devolve o silêncio da minha própria mágoa...

Espelho, espelho, quanto afinal me mentiste?

Naquela imagem dupla que me oferecias,

qual era a verdadeira imagem,

qual era na verdade uma ilusão?


És frio, és pelho, espelho,

estupor, espanto, esperança esvaída...

Espelho, espelho, quanto afinal me mentiste:

ou estarás finalmente refletindo a mentira?...



Teimosia SRebouças 1966

SE O PREÇO DAS VENTURAS PASSAGEIRAS
É SOFRER DIA E NOITE
AS INCERTEZAS
DE MOMENTOS FRIOS
E PALAVRAS SECAS,
BUSCANDO CONTEÚDO
SEM ACREDITAR,
ACHANDO CARINHO
SEM SE SATISFAZER,
CHORAR LÁGRIMAS DE ALEGRIA
E RIR, ESCONDENDO A VONTADE DE CHORAR....
AINDA ASSIM, MEU DEUS,
EU QUERO SEMPRE
AMAR!....

Nas águas do lago SRebouças 1965

Nas águas de um lago
a meus pés derramado
vi teu reflexo,
uma imagem tão cara,
que eu acreditava
perdida no passado.
E embora soubesse os sentidos tão falhos
vibrei, ao sentir tua presença no lago...
Um peixinho tranquilo,
que passeava no fundo
lançou-me umas bolhas
que vieram subindo,
subindo, subindo
e foram estourar,
sincrônicamente
com a bolha magoada
da minha ilusão,
nas águas do lago.

Meramente fumaça SRebouças 1970

Deixa este cigarro e vai,
vai lentamente, vai,
fumaça azulada
desgarrada
desdenhada - vai!
Vai até aquela
que é ela,
que é tela - vai,
e serve-lhe de moldura!
Vai, lentamente vai,
e segreda-lhe os segredos
os medos
os ledos devaneios meus:
fumaça de tantos cigarros, vai,
e serve de mensageira de quem
fumando, anseia, sonha e espera
e segreda-lhe coisas de eternidade.

Brumas e ilusões SRebouças 1985

Tenho-te nas brumas do meu pensamento:
as ausências dançam e se agitam no porão
da minha lembrança,
enquanto os cenários se revezam
em delírio de cores, sons e emoções,
as formas se embriagam nos gestos que me parecem familiares,
aqui e ali me parece que vais voltar - eu não quero,
mas não posso negar, estás nas brumas do meu pensamento.
Os mesmos passos me voltam pelos pés de outro alguém,
os mesmos gestos me voltam, nas intenções de outro alguém,
o mesmo re-encontro pele a pele num corpo qualquer...
E é tudo tão diverso, tão diversamente embriagador,
na medida em que a tua lembrança se faz presente,
enquanto o presente de outro alguém parece
às vezes fazer-se em mera falsa lembrança
no lusco-fusco das emoções mal extraídas
e pior compreendidas!

Parteída SRebouças 1985

Vai - pousa lentamente nesta quimera que esmaece,
inda uma vez...com a mesma suavidade
da borboleta que adeja
aleatoriamente...
Vai - que o estrépito das batalhas
e o rugir dos canhões
não são para ti: nem cenário, nem momento
pois travas tuas batalhas num recôndito mais grave,
onde a consciência em prantos procura a realidade,
onde o desejo é fraco face à incerteza que tortura...
Bate tuas asas, lentamente, e vai: choro contigo
mas não tenho palavras para recriminar-te;
sigo teu vôo com o coração docemente comovido
a espreitar teu caminho incerto alguma lamparina
a que não saberás resistir....
Talvez eu saiba que não poderei seguir-te adiante,
quando já me faltarem o ar e as forças,
e a certeza das mãos e a presteza da lingua....
Vai!...mas antes, sobrevoa lentamente em caprichoso círculo
este vale, que volta a se cobrir de sombras,
lentamente...

Eu e você SRebouças 1982

Já não sei mais quem somos, eu e você
já não sei mais quem somos, eu e vocês,
já nem sei mais se somos, ou fomos, eu, você, vocês!
Ou quando fomos,
se um dia fomos,
fora dos sonhos que afogamos
sem quase sentir...
Agora sem mesmo fingir
fingindo sentir
sem sentir fingimento
ou fingindo não sentir:
esta idéia de perda,
uma vida de merda,
um raio a luzir,
num firmamento acabrunhado
e cinzento...
O sorriso forçado
o esgar disfarçado, o alheio presente,
o silêncio doente, e o gesto impotente
do esforço ingente que não se quer mais tentar...
Ah! sim, é hora de rirmos,
de nos espalharmos
em busca deste novo tempo perdido
espalhar esta fome de formas novas
gozar esta pleiade de estrelas novas
raios efêmeros, sim, a luzir
neste firmamento acabrunhado e cinzento
mas - confesso,
já não sei mais quem somos,
eu e você.

Requiem para um pobre ser SRebouças 1983

Foi o coração manso que levou a mão
ao nariz inerte à reflexão dos círios,
foi o coração manso que levou a mão
ao teu peito, coberto de lírios...
No pé tanta corda nova, a caminho da alcova,
tanta corda nova, tanta cara, tanta trova,
a criar tanta nova canção de ninar!
No pé tanta corda nova, a esconder os passos
a esconder inutilmente os espaços
por onde silenciosos se arrastaram estes mesmos pés
algemados em cadeias antigas
arrastando-se mútuamente ao som de mudas e
intocáveis cantigas,
procurando caminhos que não parecem ter fim....
No coração, na lembrança, no grito silencioso,
da revolta insuspeitada
na revoada dos pombos, no troar das iras,
no espoucar dos descaminhos ameaçados...
gritos, súplicas, lamentos e até mesmo tombos
nada mais assusta aqueles intimoratos pombos
que de sua casa, feita de certeza e paz,
contemplam a chuva, o vento, o frio, a água
invadindo tudo.
Estas algemas, enferrujadas embora,
têm a textura que suporta a força dos elementos,
e a força das cordas novas que inutilmente pensam
alinhar passos à força de olhares e silêncios tão vazios...
cedem ou cederão mais cedo ou mais tarde,
lembrando o nariz no centro de mim
no coração de mim,
mas não, nunca, no centro do coração!